Oba! Encontrei mais um livro de Tatiana de Rosnay!
O primeiro livro que li desta autora, foi A CHAVE DE SARAH (Editora Objetiva, coleção Ponto de Leitura, tradução de Paulo Andrade Lemos). Hoje eu sei que até filme já existe deste livro (que, diga-se de passagem, nunca assisti!).
Mas até começo do ano passado, nunca tinha lido nada da autora. E estava, como sempre, "zapeando" pelas estantes da livraria, e encontrei o romance em edição de bolso, com o selinho de "mais de dois milhões de exemplares vendidos em todo o mundo". Ou seja: duas indicações decisivas, para acreditar que o livro era bom. Porque, aqui no Brasil (zei láh o porquê!), ao contrário do resto do mundo, só os livros que vendem muito e podem ser considerados clássicos de sua geração, são editados como livros de bolso. Esse é o nosso curioso país, onde a publicação barata e acessível consagra um autor...
Enfim.
A CHAVE DE SARAH é um romance simplesmente maravilhoso. Embora ambientado na segunda grande guerra, fala mesmo é de uma tragédia familiar que principia na inocência de uma criança. Começa com a curiosidade de uma jovem, viaja no tempo fuçando segredos, mas a dada altura da história eu lia e chorava, chorava e lia, sem conseguir parar. O livro ideal prá buscar na prateleira, quando a vida dá uma rasteira na gente, mas permanecemos fortes e contendo as lágrimas. Tocante. Magistral.
O segundo livro que li da Tatiana de Rosnay, foi UM SEGREDO DE FAMÍLIA. Uma leitura gostosa, cativante, sobre... segredos de família, oras! Não é tão marcante quanto a Chave de Sarah, mas tem uma narrativa fluente, que prende do começo ao fim.
E hoje, encontrei A CASA QUE AMEI. Esse eu só li o comecinho, mas estou entusiasmada. Primeiro porque eu mesma estou escrevendo sobre uma casa (aquela mal assombrada, que comentei em outro post. Aproveitei o feriado de carnaval, para escrever dois primeiros contos/capítulos, já estou com mais três quase todo estruturados na cabeça, pintei quatro fotos das quais três ficaram bem interessantes). É muito bom ler o que outros escreveram sobre temas similares, ajuda a pensar.
Mas Rosnay não escreve sobre qualquer casa. O livro é ambientado num dos períodos da história recente, que amo, porque acho extremamente parecido com tudo o que estamos vivendo hoje. Ela trata da reforma de Paris, levada a cabo entre 1852 a 1870 por Napoleão III e o Barão de Haussmann, quando tornaram a cidade-luz o exemplo de modernidade copiado por todo o mundo no século XX, ao mesmo tempo em que enterravam uma época cheia de tradições e costumes, a Paris medieval.
Essa reforma foi muito criticada por nomes como Baudelaire, Zola e Victor Hugo. E com a revolta destes pensadores privilegiados, a reforma de Paris trouxe à tona toda a insegurança social que marcou, na sociedde da época, a entrada da luz elétrica como o motor da civilização. A luz elétrica modificou tudo o que era conhecido até então, sem que se soubesse o que viria a seguir (e antes que alguém cogite somente das alegrias da modernidade, lembremos que o que "veio a seguir" foram duas guerras mundiais, a guerra fria, e no momento presente, o terrorismo - religioso, inclusive -, e a sombra de uma guerra atômica).
Mas quando se lé deste período, deste impacto e da insegurança social trazidos pela energia/luz elétrica, lemos de mudanças sociais muito similares às que vivemos na atualidade, e trazem as mesmas reflexões da contemporaneidade e sua tecnologia computadorizada. Substitua "luz elétrica", por "computador", e todo o restante se lê igual. A mesma rapidez na mudança de costumes, a mesma insegurança quanto ao futuro, a mesma sensação de invasão de privacidade.
É como fazer uma viagem no tempo, mas não sair do lugar.
Portanto, com licença, mas agora vou direto pro sofá, ler um pouquinho!
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI
Hoje a televisão anuncia a renúncia do Papa Bento XVI, a ser formalizada em 28 de fevereiro de 2013, agora, próximo. A primeira coisa que pensei, foi com que rapidez consegui substituir a previsão do fim do mundo maia, que não se concretizou no final do ano passado. Andava me sentindo meio vazia, desde que o (tão inacreditavelmente distante) 21 de dezembro de 2012 chegou, passou, e não teve nem uma catastrofezinha michuruca prá animar a platéia.
Não me entendam mal. Não tenho nenhuma predileção por notícias traumáticas, e sou daquelas capazes de trocar de canal no jornal televisivo diário, quando suas notícias mais parecem as de um jornal sensacionalista dos crimes do bairro. Era mais uma questão de costume, mesmo. Acho que vivi minha vida adulta, aguardando o malfadado fim do mundo. Esperei a virada do milênio, o Bug do ano 2000, o apocalipse de 2001. Achava mais provável o primeiro, o segundo já andava desacreditado mesmo naquela época. Depois, escolhi as profecias maias. Com elas, a humanidade não se extinguiria, a previsão somava apenas uma sucessão de catástrofes naturais mudando a configuração do mundo. Tinha, então, a vantagem da demora, mais de uma década para ler e devanear sobre uma época devastadora e um recomeço rudimentar. Porque é isso que as profecias de fim de mundo sempre significaram para mim: começar outra vez, num mundo mais rústico, diferente, um futuro com ares do passado.
Quando "nada" aconteceu, fiquei um tantinho desnorteada. Não porque acreditasse, com indignação, na veracidade da interpretação profética. Nem as latas de feijoada e legumes, e o estoque de vinho e cigarro que havia programado manter nos armários, cheguei a fazer. Na verdade, no dia fatídico, estava sentada no sofá assistindo a uma prosaica televisão, usufruindo os primeiros dias de férias no esgotamento físico e mental característico, pensando em como me arrependeria da falta de provisões se por algum destino azarado realmente acontecesse alguma catástrofe.
Mas ficou um vazio, aquela sensação de chegar no fim de um livro interessante, de quando sobe o letreiro de créditos do filme findo, do momento inevitável em que o garçon traz a conta e constatamos que foi tudo muito bom, excitante, mas terminou. Essa a tristeza das fantasias com hora marcada para terminar.
E eis que, hoje, assisto ao anúncio de que Bento XVI renunciou ao papado. O filme recomeça, portanto, com as profecias de Malaquias, que previu ao próximo - Pedro Romano -, o último papado contemporâneo a grandes mudanças, grandes catástrofes, uma espécie de fim do mundo, a queda da igreja e o vazio do Vaticano.
Acontecerá?
Não sei. Há tanta rotina na minha vida cotidiana, que agora confundo realidade e fantasia para ver se consigo resistir ao tédio. Uma confusão agora deliberada, pausada, decidida com vagar. Uma confusão saboreada como um bom texto literário, sem pudor, pronto para ser transformado em novas idéias, contos, romances, telas e desenhos, toda vez que houver um tempo livre em que eu possa me recolher como um ermitão, como neste Carnaval. Adeus, Maias.Bem vindo, Malaquias. O futuro pertence, agora, à imaginação.
DARKOVER - Marion Zimmer Bradley
Poucas autoras tiveram tanta influência na minha vida, como Marion Zimmer Bradley.
Digo "na vida", mesmo, porque as obras desta autora foram muito além da simples literatura. Por décadas, suas histórias me acompanharam, reli quase todos seus livros pelo menos três vezes. Adaptei o Juramento das Amazonas Livres para minha própria vida. E por fim, dei à minha personagem principal um nome composto, na forma como as Amazonas Livres o fariam.
Mas ano passado, numa tarde ociosa, fui pesquisar o que existia de comentários sobre minha autora favorita, até encontrar um comentário que me deixou indignada!
Alguém lia Marion sem conhecer as linhas de suas séries, as sequências de seus trabalhos!
Já escrevi sobre os livros interessantes que li nestas férias. Mas ainda não escrevi sobre os livros que inspiraram a vontade de escrever, ou explicar a quem interesse (ou talvez, apenas a mim mesma...), o que é a série DARKOVER, a ficção científica desta autora que é mais conhecida por sua reconstituição histórica (e herética) da história do Rei Arthur, na série em quatro volumes das BRUMAS DE AVALON.
DARKOVER é uma outra história, apenas ficção, sem a reconstituição histórica que marca alguns de seus livros mais famosos (como as Brumas de Avalon, ou O Incêndio de Tróia).
Marion definiu DARKOVER como ficção "comportamental", ou seja, uma ficção científica que valorava mais o comportamento humano ante novas tecnologias, do que a tecnologia em si.
Na época, uma inversão revolucionária, pois os autores famosos da ficção científica - que Marion leu e cita como referência de grandes mestres -, consideravam os avanços científicos como a razão das possibilidades infinitas do futuro.
Mas ao contrário destes grandes mestres da ficção científica, Marion tem uma visão parecida com a de MC LUHANN ou HUXLEY (Admirável Mundo Novo), outros dos meus autores favoritos. A idéia da "ficção científica comportamental" é o questionamento sobre como o uso de novas tecnologias, modifica quem somos, como percebemos a realidade, excluindo o enfoque entusiástico e tendenciosamente otimista dos discursos consumistas que acompanharam a propaganda de tais mudanças.
Para desenvolver essa idéia, Marion criou DARKOVER.
Em português, foram traduzidos dez livros da série, e são estes que eu conheço.
Todos os livros podem ser lidos de forma independente... mas não resta dúvida que são muito mais saborosos,quando lidos em sequência.
A história começa com A CHEGADA EM DARKOVER.
É um livro pequeno, o menor de toda a série.
Conta a história de um grupo de cientistas, astronautas e colonos, que partem em busca de um planeta demarcado, onde os colonos iniciarão um assentamento humano.Porém, toda a avançadíssima tecnologia de viagens espaciais com que os humanos interagem nos muitos planetas conhecidos das galáxias próximas, na história que passa num império extra mundos em expansão, não consegue impedir um acidente com esta nave, que acaba pousando em um planeta desconhecido, não formatado nos mapas, sem acesso à comunicação interplanetária. Os cientistas vêem-se incapazes de consertar os estragos da nave, e ficam confinados ao lugar perdido. Mas os colonos, cujo destino era mesmo povoar algum planeta distante, não vêem diferença em assentar neste lugar desconhecido, ou em qualquer outro. Depois de alguns contratempos, os colonos decidem ficar por ali mesmo, já que o clima o permitia, e passam a chamar o lugar de Darkover. Neste meio tempo, Marion sugere que ali acontece primeira interação, entre humanos e uma forma alienígena feita de energia, como um fantasma.
A saga continua com a era do caos.
A população humana cresceu, formou aldeias e cidades, desbravou o planeta nas áreas habitáveis e demarcou seus lugares inacessíveis. Mas esqueceu suas origens.
Entre o povo, esporadicamente, nascem pessoas com poderes paranormais. E já se sabe que tais poderes são transmitidos geneticamente. Assim, as famílias onde nascem crianças com tais poderes, começam a promover casamentos entre parentes, no objetivo de fortalecer tais dons. E estas famílias tornam-se poderosas, estabelecendo sociedades feudais.
Porém, na era do caos, ninguém sabe com mediana certeza, quais são os dons possíveis ou como controlá-los, e por isso, as histórias deste período terminam em tragédias.
São romances da era do Caos: A RAINHA DA TEMPESTADE (sobre a jovem capaz de dominar as forças da natureza), e A DAMA DO FALCÃO (sobre a jovem capaz de se comunicar com os animais).
Conta a saga que, muitos séculos depois, os humanos "terráqueos", estendendo infinitamente o Império, finalmente descobrem DARKOVER. E se surpreendem como a população local é parecida com os próprios humanos, embora os considerem vivendo em uma sociedade de características medievais.
Nesta fase, séculos haviam passado desde a Era do Caos. Os darkovianos finalmente conseguiram identificar os portadores de poderes paranormais, suas ramificações, as fases de crescimento, loucura e desenvolvimento dos poderes, e a forma de controlá-los. Formam-se as castas reais, das famílias poderosas e donas de muitas terras, e as castas sacerdotais, que reúne, treina, potencializa e coloca a serviço da sociedade, a canalização da energia dos portadores de poderes paranormais.
Marion desenvolve a idéia de um futuro extremamente racional e tecnológico para a raça humana originária da terra/os terráqueos, e a contrapõe com uma civilização de características medievais, mas portadora de poderes paranormais fortíssimos, um segredo guardado ciosamente contra os invasores/os darkovianos.
Nesta sociedade "medieval", Marion recria e dá cores à opressão feminina, no universo da ficção. Em sua descrição do casamento formal, dito "di catenas", substitui o simbolismo (para nós tradicional) das alianças, para literais algemas (catenas), significando a prisão e a submissão da mulher na hierarquia patriarcal darkoviana. Em contrapartida, cria a Guilda das Amazonas Livres, uma respeitada associação de mulheres adultas que conquistaram o direito de ser independentes, negociando com os poderes locais, que reúne as mulheres que vontade própria aceitem as regras rígidas da associação, a maioria fugida de maridos violentos, vítimas de trágicas histórias de opressão no passado.
Doutro lado, entre os "terráqueos", Marion aborda personagens que perfazem os questionamentos do pós-feminismo: o desprezo à vida familiar, a difícil conciliação entre a vida profissional e a vida privada, o desrespeito masculino no relacionamento a dois, e o cerceamento da intuição, sensibilidade e criatividade feminina no uso da alta tecnologia racional e computadorizada, e das burocracias e hierarquias da política de conquista espacial/imperial.
São histórias da chegada dos humanos, e da era de transição, DOIS PARA CONQUISTAR (que retrata o fim da Era do Caos), depois A CORRENTE PARTIDA (que prioriza a condição de submissão da mulher na sociedade patriarcal de Darkover), e A CASA DE THENDARA (que trata do choque de culturas, tecnológica e paranormal, sob a visão de duas mulheres, cada qual refletindo sobre o amor, a liberdade e os valores que defende).
Na última fase da série, terráqueos e darkovianos já compreenderam que são todos "humanos", embora não saibam explicar como tal realidade possa ter acontecido, mas há a hipótese de que a nave perdida de séculos atrás, tenha pousado no planeta até então desconhecido, e os darkovianos sejam descendentes dos primeiros colonos.
A interação dos dois povos, terráqueos e darkovianos, é fato consumado, embora exista preconceito dos dois lados: os terráqueos ainda consideram os darkovianos um povo atrasado e medieval, e muitos darkovianos consideram a vida dos terráqueos como insípida, fria e vazia. Isso não impede que darkovianos aprendam técnicas terráqueas, como no caso do acordo para transferência de tecnologia firmada entre médicos terráqueos e curandeiras Amazonas Livres. E isso não impede que terráqueos optem em viver com darkovianos, recebendo em troca um aprofundamento emocional e, para alguns, a descoberta de seus poderes psíquicos.
Do período, são os livros: A CIDADE DA MAGIA (que trata conhecimentos paranormais dos darkovianos, agora deferidos a uma terráquea), A HERANÇA DE HASTUR (em torno do relacionamento de amor e ódio entre o império terráqueo e as famílias reais de Darkover), A TORRE PROIBIDA (que fala sobre a submissão dos magos ao poder dos reis, e da revolta de um grupo de paranormais poderosos que resolve, em ato de rebeldia, destinar seus poderes em favor do povo), e DESTRUIDORES DE MUNDOS (que fala da existência de outros seres fantásticos, em via de extinção, ocultos como lendas da própria Darkover).
E quer saber?
Comecei a ler Darkover, lá pelos anos 90. Quase quinze anos depois, ainda repito o Juramento das Amazonas Livres, e fico feliz em saber que segui, vida afora, os conceitos que desde então tocaram meu coração.
Digo "na vida", mesmo, porque as obras desta autora foram muito além da simples literatura. Por décadas, suas histórias me acompanharam, reli quase todos seus livros pelo menos três vezes. Adaptei o Juramento das Amazonas Livres para minha própria vida. E por fim, dei à minha personagem principal um nome composto, na forma como as Amazonas Livres o fariam.
Mas ano passado, numa tarde ociosa, fui pesquisar o que existia de comentários sobre minha autora favorita, até encontrar um comentário que me deixou indignada!
Alguém lia Marion sem conhecer as linhas de suas séries, as sequências de seus trabalhos!
Já escrevi sobre os livros interessantes que li nestas férias. Mas ainda não escrevi sobre os livros que inspiraram a vontade de escrever, ou explicar a quem interesse (ou talvez, apenas a mim mesma...), o que é a série DARKOVER, a ficção científica desta autora que é mais conhecida por sua reconstituição histórica (e herética) da história do Rei Arthur, na série em quatro volumes das BRUMAS DE AVALON.
DARKOVER é uma outra história, apenas ficção, sem a reconstituição histórica que marca alguns de seus livros mais famosos (como as Brumas de Avalon, ou O Incêndio de Tróia).
Marion definiu DARKOVER como ficção "comportamental", ou seja, uma ficção científica que valorava mais o comportamento humano ante novas tecnologias, do que a tecnologia em si.
Na época, uma inversão revolucionária, pois os autores famosos da ficção científica - que Marion leu e cita como referência de grandes mestres -, consideravam os avanços científicos como a razão das possibilidades infinitas do futuro.
Mas ao contrário destes grandes mestres da ficção científica, Marion tem uma visão parecida com a de MC LUHANN ou HUXLEY (Admirável Mundo Novo), outros dos meus autores favoritos. A idéia da "ficção científica comportamental" é o questionamento sobre como o uso de novas tecnologias, modifica quem somos, como percebemos a realidade, excluindo o enfoque entusiástico e tendenciosamente otimista dos discursos consumistas que acompanharam a propaganda de tais mudanças.
Para desenvolver essa idéia, Marion criou DARKOVER.
Em português, foram traduzidos dez livros da série, e são estes que eu conheço.
Todos os livros podem ser lidos de forma independente... mas não resta dúvida que são muito mais saborosos,quando lidos em sequência.
A história começa com A CHEGADA EM DARKOVER.
É um livro pequeno, o menor de toda a série.
Conta a história de um grupo de cientistas, astronautas e colonos, que partem em busca de um planeta demarcado, onde os colonos iniciarão um assentamento humano.Porém, toda a avançadíssima tecnologia de viagens espaciais com que os humanos interagem nos muitos planetas conhecidos das galáxias próximas, na história que passa num império extra mundos em expansão, não consegue impedir um acidente com esta nave, que acaba pousando em um planeta desconhecido, não formatado nos mapas, sem acesso à comunicação interplanetária. Os cientistas vêem-se incapazes de consertar os estragos da nave, e ficam confinados ao lugar perdido. Mas os colonos, cujo destino era mesmo povoar algum planeta distante, não vêem diferença em assentar neste lugar desconhecido, ou em qualquer outro. Depois de alguns contratempos, os colonos decidem ficar por ali mesmo, já que o clima o permitia, e passam a chamar o lugar de Darkover. Neste meio tempo, Marion sugere que ali acontece primeira interação, entre humanos e uma forma alienígena feita de energia, como um fantasma.
A saga continua com a era do caos.
A população humana cresceu, formou aldeias e cidades, desbravou o planeta nas áreas habitáveis e demarcou seus lugares inacessíveis. Mas esqueceu suas origens.
Entre o povo, esporadicamente, nascem pessoas com poderes paranormais. E já se sabe que tais poderes são transmitidos geneticamente. Assim, as famílias onde nascem crianças com tais poderes, começam a promover casamentos entre parentes, no objetivo de fortalecer tais dons. E estas famílias tornam-se poderosas, estabelecendo sociedades feudais.
Porém, na era do caos, ninguém sabe com mediana certeza, quais são os dons possíveis ou como controlá-los, e por isso, as histórias deste período terminam em tragédias.
São romances da era do Caos: A RAINHA DA TEMPESTADE (sobre a jovem capaz de dominar as forças da natureza), e A DAMA DO FALCÃO (sobre a jovem capaz de se comunicar com os animais).
Conta a saga que, muitos séculos depois, os humanos "terráqueos", estendendo infinitamente o Império, finalmente descobrem DARKOVER. E se surpreendem como a população local é parecida com os próprios humanos, embora os considerem vivendo em uma sociedade de características medievais.
Nesta fase, séculos haviam passado desde a Era do Caos. Os darkovianos finalmente conseguiram identificar os portadores de poderes paranormais, suas ramificações, as fases de crescimento, loucura e desenvolvimento dos poderes, e a forma de controlá-los. Formam-se as castas reais, das famílias poderosas e donas de muitas terras, e as castas sacerdotais, que reúne, treina, potencializa e coloca a serviço da sociedade, a canalização da energia dos portadores de poderes paranormais.
Marion desenvolve a idéia de um futuro extremamente racional e tecnológico para a raça humana originária da terra/os terráqueos, e a contrapõe com uma civilização de características medievais, mas portadora de poderes paranormais fortíssimos, um segredo guardado ciosamente contra os invasores/os darkovianos.
Nesta sociedade "medieval", Marion recria e dá cores à opressão feminina, no universo da ficção. Em sua descrição do casamento formal, dito "di catenas", substitui o simbolismo (para nós tradicional) das alianças, para literais algemas (catenas), significando a prisão e a submissão da mulher na hierarquia patriarcal darkoviana. Em contrapartida, cria a Guilda das Amazonas Livres, uma respeitada associação de mulheres adultas que conquistaram o direito de ser independentes, negociando com os poderes locais, que reúne as mulheres que vontade própria aceitem as regras rígidas da associação, a maioria fugida de maridos violentos, vítimas de trágicas histórias de opressão no passado.
Doutro lado, entre os "terráqueos", Marion aborda personagens que perfazem os questionamentos do pós-feminismo: o desprezo à vida familiar, a difícil conciliação entre a vida profissional e a vida privada, o desrespeito masculino no relacionamento a dois, e o cerceamento da intuição, sensibilidade e criatividade feminina no uso da alta tecnologia racional e computadorizada, e das burocracias e hierarquias da política de conquista espacial/imperial.
São histórias da chegada dos humanos, e da era de transição, DOIS PARA CONQUISTAR (que retrata o fim da Era do Caos), depois A CORRENTE PARTIDA (que prioriza a condição de submissão da mulher na sociedade patriarcal de Darkover), e A CASA DE THENDARA (que trata do choque de culturas, tecnológica e paranormal, sob a visão de duas mulheres, cada qual refletindo sobre o amor, a liberdade e os valores que defende).
Na última fase da série, terráqueos e darkovianos já compreenderam que são todos "humanos", embora não saibam explicar como tal realidade possa ter acontecido, mas há a hipótese de que a nave perdida de séculos atrás, tenha pousado no planeta até então desconhecido, e os darkovianos sejam descendentes dos primeiros colonos.
A interação dos dois povos, terráqueos e darkovianos, é fato consumado, embora exista preconceito dos dois lados: os terráqueos ainda consideram os darkovianos um povo atrasado e medieval, e muitos darkovianos consideram a vida dos terráqueos como insípida, fria e vazia. Isso não impede que darkovianos aprendam técnicas terráqueas, como no caso do acordo para transferência de tecnologia firmada entre médicos terráqueos e curandeiras Amazonas Livres. E isso não impede que terráqueos optem em viver com darkovianos, recebendo em troca um aprofundamento emocional e, para alguns, a descoberta de seus poderes psíquicos.
Do período, são os livros: A CIDADE DA MAGIA (que trata conhecimentos paranormais dos darkovianos, agora deferidos a uma terráquea), A HERANÇA DE HASTUR (em torno do relacionamento de amor e ódio entre o império terráqueo e as famílias reais de Darkover), A TORRE PROIBIDA (que fala sobre a submissão dos magos ao poder dos reis, e da revolta de um grupo de paranormais poderosos que resolve, em ato de rebeldia, destinar seus poderes em favor do povo), e DESTRUIDORES DE MUNDOS (que fala da existência de outros seres fantásticos, em via de extinção, ocultos como lendas da própria Darkover).
E quer saber?
Comecei a ler Darkover, lá pelos anos 90. Quase quinze anos depois, ainda repito o Juramento das Amazonas Livres, e fico feliz em saber que segui, vida afora, os conceitos que desde então tocaram meu coração.
"Deste dia em diante renuncio ao direito de casar, a não ser como uma companheira livre. Nenhum homem me prenderá di catenas (com algemas) e não habitarei na casa de nenhum homem como uma barragana (amante). (...) Deste dia em diante juro que nunca mais serei conhecida de novo pelo nome de qualquer homem, seja ele pai, guardião, amante ou marido, mas apenas e exclusivamente como a filha de minha mãe. Deste dia em diante juro que não terei filho de qualquer homem, a não ser por meu próprio prazer e no meu tempo e opção; não terei filho de qualquer homem por casa ou herança, clã ou linhagem, orgulho ou posteridade; juro que somente eu determinarei a criação de qualquer criança que gerar, sem consideração pelo lugar, posição ou orgulho de qualquer homem. Deste dia em diante (...) presto o juramento de que só devo fidelidade às leis da terra como uma cidadâ livre deve fazer; ao reino, à coroa e aos Deuses. (...)
Fuçando na internet (depois de escrever, e semanas após editar esse post), encontrei no facebook um pósfácio de Marion Zimmer Bradley, sobre seu processo criativo. Gostei, transcrevo:
http://www.facebook.com/aquedadeatlantida
(Acessado em 25/03/2013)
POSFÁCIO DO LIVRO, DE MARION ZIMMER BRADLEY
Uma das perguntas que fazem e nauseiam os escritores é a seguinte:
- Onde vai buscar as suas ideias?
Quando respondo a esse tipo de perguntas tendo a ser mal educada e peremptória, pois parece que as "ideias" são uma espécie de praga repelente, totalmente estranha a quem fez a pergunta, sugerindo que ser capaz de ter "ideias" é pouco habitual. Ora eu não consigo sequer imaginar a vida sem ter,
mais ou menos de hora a hora, mais ideias do que poderei usar durante uma vida.
Mais racionalmente, sei que quem pergunta procura apenas,
ainda que não o explique de forma articulada, um vislumbre do processo criativo que lhe é desconhecido. E quando me perguntam de onde me veio a ideia para um livro como o Teia de Escuridão posso responder, sem faltar à verdade, que não faço ideia. De onde vêm os sonhos?
Uma das minhas recordações mais antigas, de quando era muito pequena, é a construção de estruturas enormes e imponentes com os muitos blocos de madeira que o meu pai, que era carpinteiro, nos oferecia como suplemento do pequeno e pouco imaginativo conjunto de cubos de construção que havia no quarto dos brinquedos. Quando me perguntavam o que estava a construir, eu respondia invariavelmente, "templos". A palavra era-me estranha; suspeitava que os templos eram "qualquer coisa parecida com igrejas" (que eu sabia o que eram) "só que muito mais". Lembro-me de ter visto uma imagem de Stonehenge e de a ter reconhecido. Só viria a ver essa construção quando já tinha quase cinquenta anos. No entanto, quando isso aconteceu,
continuei a sentir o mesmo "choque de reconhecimento".
Não me levaram muito ao cinema (e quando fui, vi sobretudo comédias e filmes de cowboys, que não tinham muito interesse para o tipo de criança que eu era) e, na minha infância, não havia televisão. Por isso onde teria eu ido buscar o desejo de imitar as estruturas imponentes dos templos Indianos ou Egípcios, com as suas longas filas de colunas e repletos,
imaginava eu, de um grande número de sacerdotes e sacerdotisas envoltos em longos mantos cujas cores definiam as suas funções?
As únicas imagens físicas da minha infância (estou a referir-me aos meus quatro anos, quando não conseguia ler mais do que Alice no País das Maravilhas) encontrei-as num livro de contos de Tanglewood, imagens de belas paisagens e de um mundo antigo que nunca existiu a não ser, talvez, na Ode on Intímations of Immorta-lity (um poema que sou muito bem capaz de ter ouvido ler antes de ser capaz de o compreender - a minha mãe era uma romântica). Mas eu sabia que aquele mundo de imagens existia; reconheci-o nas paisagens de Maxfield Parrish e, quando a minha imaginação (alimentada por Rider Haggard e Sax Rohmer), muito antes de eu ter descoberto a ficção científica através das revistas, começou a fervilhar com estas personagens e incidentes, creio que as coloquei no cenário dos templos e ambientes que construíra com os meus blocos de madeira, tal como um dramaturgo enquadra as suas personagens no palco de um teatro infantil que talvez tenha possuído na infância.
De onde vêm afinal de contas os sonhos? Só nessa fonte misteriosa poderei procurar a origem da "ideia" de Teia de Luz e Teia de Escuridão. E foi nessa mesma fonte que, anos mais tarde, fui inspirar-me para obter as visões que me proporcionaram as BRUMAS DE AVALON.
De onde vêm os sonhos?
Marion Zimmer Bradley
Uma das perguntas que fazem e nauseiam os escritores é a seguinte:
- Onde vai buscar as suas ideias?
Quando respondo a esse tipo de perguntas tendo a ser mal educada e peremptória, pois parece que as "ideias" são uma espécie de praga repelente, totalmente estranha a quem fez a pergunta, sugerindo que ser capaz de ter "ideias" é pouco habitual. Ora eu não consigo sequer imaginar a vida sem ter,
mais ou menos de hora a hora, mais ideias do que poderei usar durante uma vida.
Mais racionalmente, sei que quem pergunta procura apenas,
ainda que não o explique de forma articulada, um vislumbre do processo criativo que lhe é desconhecido. E quando me perguntam de onde me veio a ideia para um livro como o Teia de Escuridão posso responder, sem faltar à verdade, que não faço ideia. De onde vêm os sonhos?
Uma das minhas recordações mais antigas, de quando era muito pequena, é a construção de estruturas enormes e imponentes com os muitos blocos de madeira que o meu pai, que era carpinteiro, nos oferecia como suplemento do pequeno e pouco imaginativo conjunto de cubos de construção que havia no quarto dos brinquedos. Quando me perguntavam o que estava a construir, eu respondia invariavelmente, "templos". A palavra era-me estranha; suspeitava que os templos eram "qualquer coisa parecida com igrejas" (que eu sabia o que eram) "só que muito mais". Lembro-me de ter visto uma imagem de Stonehenge e de a ter reconhecido. Só viria a ver essa construção quando já tinha quase cinquenta anos. No entanto, quando isso aconteceu,
continuei a sentir o mesmo "choque de reconhecimento".
Não me levaram muito ao cinema (e quando fui, vi sobretudo comédias e filmes de cowboys, que não tinham muito interesse para o tipo de criança que eu era) e, na minha infância, não havia televisão. Por isso onde teria eu ido buscar o desejo de imitar as estruturas imponentes dos templos Indianos ou Egípcios, com as suas longas filas de colunas e repletos,
imaginava eu, de um grande número de sacerdotes e sacerdotisas envoltos em longos mantos cujas cores definiam as suas funções?
As únicas imagens físicas da minha infância (estou a referir-me aos meus quatro anos, quando não conseguia ler mais do que Alice no País das Maravilhas) encontrei-as num livro de contos de Tanglewood, imagens de belas paisagens e de um mundo antigo que nunca existiu a não ser, talvez, na Ode on Intímations of Immorta-lity (um poema que sou muito bem capaz de ter ouvido ler antes de ser capaz de o compreender - a minha mãe era uma romântica). Mas eu sabia que aquele mundo de imagens existia; reconheci-o nas paisagens de Maxfield Parrish e, quando a minha imaginação (alimentada por Rider Haggard e Sax Rohmer), muito antes de eu ter descoberto a ficção científica através das revistas, começou a fervilhar com estas personagens e incidentes, creio que as coloquei no cenário dos templos e ambientes que construíra com os meus blocos de madeira, tal como um dramaturgo enquadra as suas personagens no palco de um teatro infantil que talvez tenha possuído na infância.
De onde vêm afinal de contas os sonhos? Só nessa fonte misteriosa poderei procurar a origem da "ideia" de Teia de Luz e Teia de Escuridão. E foi nessa mesma fonte que, anos mais tarde, fui inspirar-me para obter as visões que me proporcionaram as BRUMAS DE AVALON.
De onde vêm os sonhos?
Marion Zimmer Bradley
Histórias de Fantasmas
Eis o livro que me inspirou a fase atual: HISTÓRIAS DE FANTASMAS (Ed Suma das Letras, organização Richard Dalby, tradução Cristina Cupertino), uma coletânea de contos de terror de 25 autoras inglesas.
Há muito... MUITO tempo, que eu não lia contos. De forma geral, não é minha opção literária preferida. Quase prefiro um romance ruim, a ler contos. Mas abri uma exceção: estava à procura de uma opção para escrever, mais curta, que pudesse conciliar com imagem, e que pudesse apresentar para contadores de histórias. Vou trabalhar com isso na pós graduação em que me inscrevi (arteterapia), mas não conheço esse universo, que vejo crescer longe de mim.
A grande curiosidade que levo comigo, para o ano que inicia, é que tipo de literatura é contada por esse imenso voluntuariado, e se existe espaço para novos autores. Mas penso: mesmo que exista, terão que ser textos mais curtos, não é? Não serve, para esse tipo de leitura terceirizada, mais de duzentas páginas que precisam ser lidas de forma corrente.
Era esse o meu pensamento, quando encontrei esse lançamento nas prateleiras. Dizia a orelha, que as autoras, além do "terror", também tinham uma influência feminista. Verdade seja dita, li o livro inteiro e ainda estou procurando a influência feminista. Mas também não fui analisar autora por autora dentro de sua época. Possível que esse feminismo, seja como as teorias de Sartre: foram absorvidos pela sociedade, como uma "verdade óbvia" com tamanha rapidez, que precisamos de uma perspectiva histórica para reconhecê-los como uma idéia revolucionária em seu tempo. Como chamam a isso, mesmo? Presentismo? Acho que é isso.
Fiz bem em abrir a exceção.
O livro é delicioso. E foi a inspiração que eu precisava, para encontrar direcionamento e retomar um projeto antigo, de escrever fantasia sobre uma casa abandonada próxima aqui de casa e que, dizem as más linguas, é assombrada. Em pleno Carnaval, enquanto o país dança samba e se diverte na folia, e o resto do mundo ouve pasmo a notícia da renúncia do Papa Bento, eu pinto cenas e fantasmas sobre as fotografias do registro de três anos atrás, pesquiso material sobre a história da minha cidade, e invento minhas próprias histórias de fantasmas, tentando criar contos que, reunidos, formem um romance que possa ser lido à prestação.
Porque HÍSTÓRIAS DE FANTASMAS tem essa capacidade de inspiração. São histórias muito bem escritas, algumas com aprofundamento psicológico, outras surpreendentemente interessantes apesar de não resvalar para além de um episódio que o próprio personagem considera discutível. No conto NÃO CONTE PARA CISSIE (Célia Fremlin), consegui me colocar no lugar das personagens, fui surpreendida com um final inesperado, e passei dias sem conseguir esquecer a história. A HISTÓRIA DA VELHA BABÁ (Elizabeth Gaskell) é uma viagem no tempo, narrativa cativante como um bom filme. O MOTORISTA (Rosemary Pardoe) apresentou uma idéia surpreendente: um fantasma amigável, cuja presença é desejável. E a história de QUEM ANDOU SE SENTANDO NO MEU CARRO? (Antonia Fraser) lembra, um pouco, o ambiente trágico e fatalista de alguns livros de Stephen King.
Há muito... MUITO tempo, que eu não lia contos. De forma geral, não é minha opção literária preferida. Quase prefiro um romance ruim, a ler contos. Mas abri uma exceção: estava à procura de uma opção para escrever, mais curta, que pudesse conciliar com imagem, e que pudesse apresentar para contadores de histórias. Vou trabalhar com isso na pós graduação em que me inscrevi (arteterapia), mas não conheço esse universo, que vejo crescer longe de mim.
A grande curiosidade que levo comigo, para o ano que inicia, é que tipo de literatura é contada por esse imenso voluntuariado, e se existe espaço para novos autores. Mas penso: mesmo que exista, terão que ser textos mais curtos, não é? Não serve, para esse tipo de leitura terceirizada, mais de duzentas páginas que precisam ser lidas de forma corrente.
Era esse o meu pensamento, quando encontrei esse lançamento nas prateleiras. Dizia a orelha, que as autoras, além do "terror", também tinham uma influência feminista. Verdade seja dita, li o livro inteiro e ainda estou procurando a influência feminista. Mas também não fui analisar autora por autora dentro de sua época. Possível que esse feminismo, seja como as teorias de Sartre: foram absorvidos pela sociedade, como uma "verdade óbvia" com tamanha rapidez, que precisamos de uma perspectiva histórica para reconhecê-los como uma idéia revolucionária em seu tempo. Como chamam a isso, mesmo? Presentismo? Acho que é isso.
Fiz bem em abrir a exceção.
O livro é delicioso. E foi a inspiração que eu precisava, para encontrar direcionamento e retomar um projeto antigo, de escrever fantasia sobre uma casa abandonada próxima aqui de casa e que, dizem as más linguas, é assombrada. Em pleno Carnaval, enquanto o país dança samba e se diverte na folia, e o resto do mundo ouve pasmo a notícia da renúncia do Papa Bento, eu pinto cenas e fantasmas sobre as fotografias do registro de três anos atrás, pesquiso material sobre a história da minha cidade, e invento minhas próprias histórias de fantasmas, tentando criar contos que, reunidos, formem um romance que possa ser lido à prestação.
Porque HÍSTÓRIAS DE FANTASMAS tem essa capacidade de inspiração. São histórias muito bem escritas, algumas com aprofundamento psicológico, outras surpreendentemente interessantes apesar de não resvalar para além de um episódio que o próprio personagem considera discutível. No conto NÃO CONTE PARA CISSIE (Célia Fremlin), consegui me colocar no lugar das personagens, fui surpreendida com um final inesperado, e passei dias sem conseguir esquecer a história. A HISTÓRIA DA VELHA BABÁ (Elizabeth Gaskell) é uma viagem no tempo, narrativa cativante como um bom filme. O MOTORISTA (Rosemary Pardoe) apresentou uma idéia surpreendente: um fantasma amigável, cuja presença é desejável. E a história de QUEM ANDOU SE SENTANDO NO MEU CARRO? (Antonia Fraser) lembra, um pouco, o ambiente trágico e fatalista de alguns livros de Stephen King.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Um autor: CARLOS RUIZ ZAFÓN
Em
2012, descobri Carlos Ruiz Zafón. O primeiro que li, foi A SOMBRA DO VENTO (Ed Summa das Letras, tradução de Márcia
Ribas), ainda no primeiro semestre do ano. Chamou a atenção o selinho
impresso “Mais de 6.5 milhões de
exemplares vendidos em todo o mundo”, um indicador razoavelmente preciso
para um livro que vou gostar de ler (com
exceções notáveis, como o tal “Comer, amar & rezar” e o primeiro volume da
trilogia dos tons de cinzas, em ambos joguei dinheiro fora: comprei o livro,
fiz o maior esforço prá ler, mas não consegui chegar na centésima página e
desisti, vencida pelo tédio).
Também
dei uma espiada na orelha, antes de comprar, é claro. Lá estava escrito, na
sucinta sinopse, “(...) leva-o até o
Cemitério dos Livros Esquecidos, uma biblioteca secreta que funciona como
depósito para obras abandonadas pelo mundo à espera de alguém que as descubra.”
Uma
escritora à procura de leitores, quase desmotivada de tanto escrever para
gavetas, consegue resistir à imagem de um Cemitério de Livros Esquecidos? Bom,
eu não consegui. Foi o livro que levei prá casa, li em uma sentada, naquele
misto de admiração e uma pontinha de inveja, que a idéia foi de Zafon, e não
minha...
São
os mais de seis milhões de leitores que me dão certeza de não ser suspeita para
elogiar o livro. Mas confesso: eu o li, fascinada com a idéia, com vontade de
descobrir onde é o tal lugar secreto do Cemitério dos Livros Esquecidos, quase
determinada a colocar ali também os meus. Alguém os descobriria? Meus livros
seriam o início de uma aventura, como ocorre com os personagens de Zafón?
Mas
o gostoso de descobrir (e se identificar com) um autor que já é reconhecido, é
que posso terminar de ler um livro e correr à livraria em busca de outros
volumes do mesmo autor! Neste caso, foi amor à primeira vista, com direito a
mais três encontros apaixonantes: li em seguida O JOGO DO ANJO (Editora
Objetiva, em edição de bolso, coleção Ponto de Leitura, tradução Eliana Aguiar),
e PRISIONEIRO DO CÉU (Editora Summa das Letras, tradução Eliana Aguiar), todos
continuações da Sombra do Vento, e eu quase me sentindo parente por afinidade
dos personagens do livro. Adoro a sensação de retornar à uma nova história,
continuação de outra que eu já li. Sou uma destas leitoras tolas, que fala
sozinha com os personagens para perguntar, cada início de uma nova história, como
passou o tempo desde que nos encontramos no livro lido, antes ainda de me
envolver na nova aventura em que vamos embarcar. Fiz isso em toda a série
Darkover da Marion Zimmer Bradley, nos livros de bruxas e vampiros de Anne
Rice, e repito qual um ritual, toda vez que me defronto com mais uma série
apaixonante. Se no primeiro livro que leio de um autor tudo é novidade e
expectativa, do segundo em diante já me sinto parte da família.
E
neste começo de ano, que felicidade, re-edição de MARINA (Editora Summus das
Letras, tradução de Eliana Aguiar). Na nota do autor, Zafon explica que o
romance esteve em disputa de direitos autorais por muitos anos (a primeira
edição é de 1999), e que foi originalmente escrito e publicado como livro
juvenil, mas que ele próprio tem a esperança de que tivessem apelo para gente
de todas as idades. Será que lhe escrevo, dizendo que até na "meia idade" (eu!) também
se festeja o livro?
As
histórias são interessantes. Mas o que realmente prende a atenção é a forma
como Zafon constrói a trama, crescendo devagar até enormes suspenses a partir de
informações ou circunstâncias quase banais. É um daqueles autores que partem da
realidade cotidiana em direção à fantasia, tecendo aventura em torno dos
segredos dos personagens que cria, naquele vácuo imerso de criatividade que
existe entre o que aconteceu, o que não se sabe se aconteceu, e a pura fantasia do que não aconteceu mas poderia
ter acontecido. Acho que foi muito fácil, como leitora, criar empatia com esse
tipo de narrativa, porque é um espelho da meu/nosso cotidiano, onde tão difícil
discernir a realidade da fantasia, a promessa eleitoreira da intenção política,
a tragédia anunciada do ocaso infeliz. Estamos todos afogados na realidade
triste e manipuladora das mídias. Estou sempre perguntando qual a verdade por trás
da demagogia das matérias jornalísticas. Zafón escreve como quem vê a realidade
por uma câmera de segurança da loja, fixando os detalhes de uma realidade
fantástica cheia de referência ao cotidiano que conhecemos, mesmo que seja por
resquícios persistentes de um passado recente.
Agora,
fico torcendo para encontrar um quinto livro do mesmo autor. E para, mais uma
vez, deixar a realidade do lado de fora da porta do quarto, e mergulhar por
mais algumas noites pelos corredores escuros do Cemitério dos Livros Esquecidos
e andar nas ruas sombreadas de histórias da velha Barcelona.
![]() |
| (Capa do livro MARINA, Editora Summus) |
O ORFANATO DA SRTA PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES
O
ORFANATO DA SRTA PEREGRINE PARA CRIANÇAS PECULIARES,
de Ransom Riggs. Autor RAnsom Riggs, traduzido por Edmundo Barreiro e Márcia
Blasques, editado no Brasil pela Editora LeYa, e eu o comprei e li em 2012.
Exposto nas Livrarias
Curitiba, o livro chamou a atenção por mais de uma razão. Já estávamos da
metade para o fim do ano de 2012, e acompanhava com curiosidade o trabalho de
conclusão do Curso Superior de Escultura de uma colega, a Vanessa Loiola, que
expôs sob o título “A Posteriori” (vide: http://www.gazetadopovo.com.br/cadernog/conteudo.phtml?id=1313775&tit=Exposicao-mostra-mortos-fotografados-como-se-estivessem-vivos-). O trabalho foi considerado controverso, pois
construído a partir de uma extensa pesquisa de fotos de mortos do fim do século
XIX, no costume de época de retratar os entes queridos logo após o falecimento,
vestidos e maquiados como se ainda estivessem vivos entre os familiares
sobreviventes. E foi bastabte criticado, durante sua construção,
fosse porque considerado mórbido, ou por sua clara referência narrativa “pouco
contemporânea” (?). Mas eu torcia por este, chamava minha atenção porque, ao
contrário da ostensiva maioria dos alunos-artistas, ela não se preocupou em
repetir discursos politicamente corretos, tampouco em fazer a arte abstrata
quase decorativa, ou da agressividade tão acondicionada e previsível que se vê como
ponto comum em qualquer exposição acadêmica.
A outra razão, foi a
frase simples de Tim Burton, colocada na contracapa do livro na forma de
pergunta: “Vocês tem certeza que não fui
eu quem escreveu esse livro? Parece algo que teria feito...”. Foi quando
folheei o livro, que é impresso em uma diagramação diferente e algo antiquada,
cheio de fotos em preto e branco e inequivocamente do século passado. Não
resisti. Além de admirar Tim Burton, tenho procurado por trabalhos que reúnam texto
e imagem, e que não sejam simplesmente histórias em quadrinhos, procurando uma
forma compatível comigo para desenvolver meu próprio trabalho. Já excluí idéias
boas na teoria e fracas na prática, porque alguém tentou isso antes e não
gostei do resultado. Sempre achei que aprender com a experiência alheia, sai
mais barato e dói menos. Então, comprei o livro, trouxe para casa na
expectativa de ler algo original, diferente, curioso.
Esta foi uma das
melhores compras que fiz no ano passado, e o primeiro livro que li que
REALMENTE intercala texto e imagem. Como informa o autor, no final do livro, “(...)
todas as imagens deste livro são fotografias antigas autênticas e, com exceção
de algumas que passaram por leve tratamento, não foram alteradas.”. Segue uma
relação dos colecionadores, proprietários de cada uma das imagens singulares e
curiosas. Sobre essa coleção de fotografias curiosas, muitas delas visíveis
experimentos das possibilidades de efeitos especiais ainda em sua fase primeira
e rudimentar, Rasom Riggs cria uma história de fantasia sobre pessoas com
poderes especiais e uma nesga no tempo, absolutamente fascinante.
O entrosamento texto
& imagem, é surpreendentemente simples e (para mim), novo. Primeiro, os
personagens são descritos dentro da narrativa. Só depois, a gente encontra a foto. Não é uma ilustração do texto. Ao contrário, no ritmo da narrativa, a gente relê na imagem, do quê já conhecia do texto.
Fiz, com prazer, o que se previa: a cada foto, eu voltava no texto, relia o que
foi escrito, voltava e comparava com a imagem. E assim, cada fotografia se transformava
em uma janela da imaginação, porque nunca nos contentamos em ver apenas aquilo
que nos indica o autor, mas fazemos da obra lida a referência para um número
infinito de associações.
Alguém pode explicar
porque quando algo nos fascina, tudo parece acontecer com uma sincronia
espetacular? Poucas semanas depois de terminar o livro, minha filha trouxe o
filme A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Martin Scorcese, 2012) para assistirmos
juntas. Fiquei fascinada. Era a mesma época, o mesmo contexto de imagem, uma imersão no passado. Depois de livro mais filme, quase saí atrás de uma máquina fotográfica antiga,
quase investi um dinheiro que não tenho só prá fazer um estúdio de revelação
de fotografias preto e branco em algum canto perdido da casa. Sonhei por uma
semana a fantasia de que, na “encarnação passada”, fui atriz de algum filme de
Meliers, que vivi naquelas casas vitorianas antiquadas. Retomei o desejo de
reformar a casa, acrescentar um sótão, instalar ali uma escrivaninha baixa e
escrever poemas a bico de pena. Queria ser uma criança peculiar. Queria viver
numa fenda do tempo. Queria viajar com um foguete de teatro até uma lua falsa.
Queria um autômato para colorir meu coração.
(Nunca vou entender
como alguém vive sem fantasia.)
![]() |
| Capa do livro (no Brasil, Ed LeYa) |
... O MUNDO NÃO ACABOU!
... mas janeiro
acabou. Janeiro, o mês mais longo do ano, trintaeumdias seguidos, onde eu
trabalho período integral, sempre com pouco dinheiro e muita conta prá pagar, enquanto mais da
metade das pessoas que conheço usufrui de suas férias. Um mês mal humorado,
calorento, cansativo, estafante. Nunca foi um mês auspicioso para começar o
ano. Mas estou resignada, não posso mudar o calendário ao meu bel-prazer, então
aprendi a simplesmente ignorar, como fosse uma erva daninha que insiste em
crescer sempre no mesmo lugar, até que janeiro finalmente finde.
Estou
cheia de idéias e pobre de motivação. Passo o dia pensando em coisas bacanas
para escrever, mas quando chego em casa, prefiro deitar na cama para ler aquilo
que outros escreveram. Não fui prá frente do espelho procurar explicações psicológicas
para tanto marasmo, preferi culpar janeiro com seu tempo abafado, seus
temporais assustadores, e os tantos bons livros que abundam nas prateleiras das
livrarias. É impressão minha, ou há uma oferta maior de bons textos, apesar de
toda a propaganda de que pouco se lê? Não sei explicar. O que eu sei, é que
desde aquela época longínqua em que minha mãe me levou pela primeira vez à
biblioteca municipal, que não tinha outro período da vida em que tantas vezes
tenha olhado prateleiras e tantas vezes tenha encontrado tantas histórias
maravilhosas para ler. Tantas vezes tântrico. Eu me fascino, e assim o tempo
passa mais célere do que deveria.
Mas
janeiro acabou.
E
a menos que pretenda passar todo o ano neste marasmo tântrico, é melhor puxar
as rédeas do ócio, e achar formas de me motivar a voltar aos projetos pessoais,
porque ninguém vai bater na minha porta tentando me animar para isso.
Foi
quando tive a idéia... enquanto escrevo minhas coisas, que tal também escrever
o que gostei nestes livros fascinantes? Porque essa roda da fortuna sempre
funcionou para mim: eu escrevo sobre o que outros escreveram, e o que outros
escreveram me serve, inspiram a escrever para mim.
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