Ano passado, minha filha viajou para um congresso, encontrou o livro, na livraria do aeroporto. Folheou e achou que tinha "a minha cara". Emprestou para que eu o lesse... e quando o fiz, a sensação foi do mais puro ALÍVIO!
Não sei se consigo descrever o desânimo absoluto que me acompanhou no último ano de faculdade (Superior de Escultura/EMBAP).
Fui da turma de transição.
Do modelo "antigo" da estrutura do curso - que valorizava a experiência profissional, artistas lecionando a arte que dominavam -, para o modelo "novo"/CAPS - que valoriza títulos de mestrado & doutorado, embora estes não sejam "artistas" propriamente ditos, mas sim "pesquisadores de arte".
Não estava preparada para o tamanho, um verdadeiro abismo, que tal mudança significava.
Fiz os dois primeiros anos da faculdade faltando orelha pro tamanho do sorriso, encontrando no curso o que havia sonhado: modelo vivo na modelagem em argila e no desenho, pintura acadêmico/moderna, gravura, anatomia artística, história da arte e tudo o mais que me apaixonava.
Mas, de um ano para outro, tudo mudou.
A escola mudou de endereço, professores antigos obrigados a fazer mestrado em outro estado, e novos professores foram contratados dentro das "novas exigências", trazendo a tal mentalidade da "pesquisa poética", acadêmica, formal e teórica, como foco central de um curso antes essencialmente prático/artístico. Olhei a criatividade e a produção ser engolida por "teorias estéticas", fiquei deprimida com o isolamento competitivo que se instalou entre professores e entre os alunos, até hoje não consegui entender nem como artistas poderiam produzir em um sistema de estudo que despreza o processo criativo, tampouco porque tanta importância e prioridade à produção de textos acadêmicos que ninguém lê! Minha adaptação foi extremamente difícil, acabei por desistir de uma matéria, postergando mais um ano de faculdade e sofrimento até completar o tal do TCC...
O Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, de Luiz Felipe Pondé, chegou às minhas mãos nos últimos meses do (meu, repetido) último ano, e foi deste texto retirei forçar para encerrar esse capítulo da minha vida.
O tema do livro, é a crítica ao que conhecemos/praticamos no cotidiano, como "pensamento politicamente correto".
Ou, sendo mais justa: a hipocrisia, as frases feitas, a covardia e a ignorância que acobertamos todos, através da "imagem bonitinha", padronizada e repetida à exaustão, do tal pensamento "politicamente" correto.
Eu "devorei" o livro, em menos de dois dias.
Há tempos eu perguntava, para mim e por aí, para onde tinham ido os carismáticos pensadores,
os revolucionários filósofos, os rebeldes e surpreendentes artistas, os
críticos sociais, que antes eram encontrados nos corredores e cantinas
das faculdades. Mais de uma vez, achei que estava ficando velha ou
resmunguenta, e que aquela imagem romântica da universidade repleta de
conhecimentos era simplesmente uma ilusão das memórias de juventude.
Depois de ler o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, deixei para trás essa sensação ruim, não estou "louca", não. Pondé também analisa (e denuncia) como as universidades, na última década (ou mais?), deixaram de ser o lugar de exercício do livre pensamento, o lumiar das novas idéias, para se tornar "cabide de emprego" burocrático, um tipo particular de "escada social", o que hoje se faz produzindo em série o tal "pensamento politicamente correto" repetitivo e emburrecedor.
Confesso que ler tal opinião, de um renomado e laureado filófoso - na ativa -, foi aliviante e recompensador.
Ele falava das faculdades de filosofia, nas eu assistia idêntica situação na faculdade de arte: o vazio das discussões acadêmicas, a superficialidade dos temas estudados, a repetição incessante de lugares comuns, a competitividade estéril, a dissociação com a realidade.
Depois deste primeiro contato com a obra do filósovo, li ainda CONTRA UM MUNDO MELHOR (também de Luiz Felipe Pondé).
Ano novo, vida nova, esta semana estou terminando o POR QUE VIREI À DIREITA - Três Intelectuais Explicam sua Opção pelo Conservadorismo, de João Pereira Coutinho/ Luiz Felipe Pondé/ Denis Rosenfield (Ed. Três Estrelas, 2012).
É um livro bem interessante, considerando que comecei a ler logo após a visita da cubana Yoani Sánchez (e fiquei muito chocada quando movimentação popular a impediu de falar, pelo menos uma vez... no Brasil? AQUI??? Não conseguia acreditar!); seguido do anúncio da morte do presidente (ditador?) venezuelano Hugo Chavez; e durante a eleição do papa, que argentino e enquanto cardeal, opunha-se ao controvertido governo de Cristina Kirchner, e das controvertidas denúncias que no passado teria apoiado a ditadura militar de seu país; e, claro, leio o livro num período em que meu próprio Brasil já começa a discutir a próxima eleição presidencial.
Quer momento melhor para ler sobre "a direita" e "a esquerda" política?
Gostei muito do posicionamento dos autores. Há dois anos, havia lido um trabalho muito interessante, sobre os intelectuais franceses no fim da II Guerra, do seu "namoro" distante e idealista com um comunismo que nunca deu certo na prática. Pois o livro POR QUE VIREI À DIREITA, tem mais ou menos o mesmo enfoque: questiona o que existe de novo (se é que existe algo realmente "novo") entre o comunismo do século XX, e sua continuidade no "socialismo do século XXI", aponta várias falácias ao "consenso do bem comum", tudo temperado com relatos da vida e experiência pessoal de cada um dos autores. Um leitura rápida, gostosa... e essencial prá quem precisa embasar uma opinião contrária ao "senso comum"/vulgo burrice institucionalizada. (E quem não precisa disso, afinal?)
Total de visualizações de página
sexta-feira, 15 de março de 2013
sábado, 9 de março de 2013
O SENSUALISTA, de Bárbara Hodgson
Este é mais um livro da minha lista de romances interessantes de ler, aprendendo algo de que sabia muito pouco.
A proposta de O SENSUALISTA, UMA HISTÓRIA DE MISTÉRIO, é interessante e ousada: uma história de mistério, com toques de paranormalidade, com exacerbação de cada um dos sentidos: visão, olfato, audição, paladar e tato. (Leio o livro neste começo do ano, em português, constando que foi traduzido por quatro pessoas: Felipe Lindoso, Dinah de Azevedo, Adail Sobral e Renata Nagnolesi, na edição de 1998 da Editora Marco Zero).
A edição é primorosa. Não só pela capa mais dura de que tenho lembrança para um livro de "tamanho normal", mas principalmente pela beleza e colorido das ilustrações, com destaque para os desenhos de uma cabeça lá pela página 122, montada em três pranchas sobrepostas.
O pano de fundo da história, são os mistérios da (pouco conhecida) vida de Andreas Vesalius, um anatomista que começou a publicar em 1538, foi professor de cirurgia em Pádua e quebrou a tradição ao fazer, ele mesmo, a dissecação de um cadáver na frente de seus alunos, ao invés de simplesmente dirigir a sessão de um púlpito elevado, contestou e corrigiu Galeno, que até então, decorridos mil e quatrocentos anos, ainda era venerado como mestre supremo. Vesalius, portanto, faz parte da geração que precede e embasa o desenho de anatomia, pela via da dissecação de cadáveres, prática que será seguida mesmo sob a perseguição da Santa Inquisição, por nomes do porte de Leonardo da Vinci, entre outros.
A história, entretanto, passa na contemporaneidade. Trata de uma jovem que, cansada de um casamento com um jornalista eternamente ausente e agora desaparecido, resolve procurá-lo para decidir, de uma vez, a separação. Tudo começa quando ela toma um trem para Viena, e assim inicia uma estranha viagem, conhecendo personagens cujas vidas se entrelaçam de forma nada sutil em volta de um mistério que sempre remete ao roubo das matrizes medievais das gravuras de Vesalius, e a experiências sensitivas paranormais, tudo em uma trama com um espírito surrealista e toques macabros.
Mas confesso que, acostumada às tramas de suspense de Stephen King, de Fellita, ou à fantasia de Anne Rice ou Marion Zimmer Bradley, achei a trama um tanto cansativa a partir da metade do livro. Em vários momentos, senti mais curiosidade pela reconstituição da vida de Vesalius, que se torna parte essencial na solução do mistério em que a personagem se vê envolvida, do quê o destino que a escritora dará aos inúmeros personagens que criou.
Entretanto, para quem (como eu) nunca tinha ouvido falar de Vesalius e pouco conhecia sobre os anatomistas medievais, ou como eram realizadas as gravuras dos desenhos sobre dissecações, ou ainda, que gosta das edições experimentais de texto e imagem em romances, o livro é ótimo!
A proposta de O SENSUALISTA, UMA HISTÓRIA DE MISTÉRIO, é interessante e ousada: uma história de mistério, com toques de paranormalidade, com exacerbação de cada um dos sentidos: visão, olfato, audição, paladar e tato. (Leio o livro neste começo do ano, em português, constando que foi traduzido por quatro pessoas: Felipe Lindoso, Dinah de Azevedo, Adail Sobral e Renata Nagnolesi, na edição de 1998 da Editora Marco Zero).
A edição é primorosa. Não só pela capa mais dura de que tenho lembrança para um livro de "tamanho normal", mas principalmente pela beleza e colorido das ilustrações, com destaque para os desenhos de uma cabeça lá pela página 122, montada em três pranchas sobrepostas.
O pano de fundo da história, são os mistérios da (pouco conhecida) vida de Andreas Vesalius, um anatomista que começou a publicar em 1538, foi professor de cirurgia em Pádua e quebrou a tradição ao fazer, ele mesmo, a dissecação de um cadáver na frente de seus alunos, ao invés de simplesmente dirigir a sessão de um púlpito elevado, contestou e corrigiu Galeno, que até então, decorridos mil e quatrocentos anos, ainda era venerado como mestre supremo. Vesalius, portanto, faz parte da geração que precede e embasa o desenho de anatomia, pela via da dissecação de cadáveres, prática que será seguida mesmo sob a perseguição da Santa Inquisição, por nomes do porte de Leonardo da Vinci, entre outros.
A história, entretanto, passa na contemporaneidade. Trata de uma jovem que, cansada de um casamento com um jornalista eternamente ausente e agora desaparecido, resolve procurá-lo para decidir, de uma vez, a separação. Tudo começa quando ela toma um trem para Viena, e assim inicia uma estranha viagem, conhecendo personagens cujas vidas se entrelaçam de forma nada sutil em volta de um mistério que sempre remete ao roubo das matrizes medievais das gravuras de Vesalius, e a experiências sensitivas paranormais, tudo em uma trama com um espírito surrealista e toques macabros.
Mas confesso que, acostumada às tramas de suspense de Stephen King, de Fellita, ou à fantasia de Anne Rice ou Marion Zimmer Bradley, achei a trama um tanto cansativa a partir da metade do livro. Em vários momentos, senti mais curiosidade pela reconstituição da vida de Vesalius, que se torna parte essencial na solução do mistério em que a personagem se vê envolvida, do quê o destino que a escritora dará aos inúmeros personagens que criou.
Entretanto, para quem (como eu) nunca tinha ouvido falar de Vesalius e pouco conhecia sobre os anatomistas medievais, ou como eram realizadas as gravuras dos desenhos sobre dissecações, ou ainda, que gosta das edições experimentais de texto e imagem em romances, o livro é ótimo!
UM RARO E ESTRANHO PRESENTE, de Pauline Holdstock
Há
uma artista medieval cuja vida me fascina, mas praticamente não encontro
informações sobre ela. Chama-se Artemísia
Gentileschi, que viveu em plena Renascença, Itália do século XVI, pintou
várias versões de “Judite e Holofernes”, alguns quadros sobreviveram até a modernidade.
Pois
em UM RARO E ESTRANHO PRESENTE (li em português com tradução de Marina Slade,
editado pela Bertrand Brasil em 2008), Pauline Holdstock criou a personagem
Sofonisba apropriando-se do pouco que se sabe da vida de Artemísia, e
inventando toda uma trama ao seu redor.
A
história é primorosa, o texto tem uma linguagem docemente sensual, a Florença
renascentista brota a cada página. A trama tem doses corretas de romance,
estupro, ciúmes, desencontros, reconstituição de época e da paixão dos artistas
pelas cores, formas e descobertas estéticas do Renascimento. Há um feminismo
essencialmente moderno na personagem, mas verossimel pelo pouco que se conhece
da artista que inspirou a trama. Os personagens tem aprofundamento psicológico,
sentimos suas contradições, tão humanas, fluindo pelo texto. Por sua vez, o “raro
presente” é uma história dentro da história, fala de uma moça simples, bela e
meiga, mas com a pele estranhamente marcada, que raptada ainda criança, foi
dada de presente a um nobre como fosse um animal exótico, e passando vários
percalços acaba transferida de mãos em mãos até parar como modelo e criada do
casal protagonista.
Para
quem gosta de literatura e da arte renascentista italiana, esse é um romance
para esquecer do mundo e viajar para outro tempo. Lindo.
E mais, um quadro de Artemísia Gentileschi, que encontrei na Internet para ilustrar esse comentário.
![]() |
| Artemísia Gentileschi |
A BRUXA DE KEPLER, de James A. Connor
Eu
conhecia um pouco da vida de Copérnico, e outro pouco da vida de Galileu
Galilei. E em ponto de vista extremamente pessoal, sempre achei o primeiro mais
inteligente do que o segundo. Sinceramente, fosse eu a viver à sombra da Santa
Inquisição, com a certeza da morte na fogueira caso divulgasse minhas idéias,
possivelmente também as escreveria em segredo, para só serem divulgadas após a
minha morte. Alguns diriam que é covardia. Eu chamo de sobrevivência.
Mas,
opiniões à parte, conhecia muito pouco da vida de Kepler, até encontrar a
biografia romanceada de James A. Connor, intitulada A BRUXA DE KEPLER (em
português com tradução de Talita M. Rodrigues, Editora Rocco2004). Sequer sabia
que Kepler e seu amigo e patrono Tycho, contemporâneos de Galileu, foram tão
importantes quanto este último para a comprovação científica e divulgação das
teses de Copérnico.
A
compra foi curiosa. Estava acompanhando um namorado, para assistirmos juntos
uma palestra sobre artes marciais orientais que acontecia em uma livraria
esotérica afastada do centro, e que eu não conhecia. Gostei do lugar. Era uma
casa antiga, um sobrado pequeno ainda com a disposição arquitetônica dos
cômodos originais, a entrada com uma escadinha lateral e minúscula varanda
coberta. A casa tinha um saguão de entrada e duas salas de porte médio, onde
funcionava a livraria propriamente dita, com prateleiras e estantes dispostas
em um ambiente gostoso, exótico, cheio de imagens indianas, incensos queimando,
e cantinhos de leitura enfeitados com cristais e plantinhas. Havia vários
títulos de publicações alternativas, farto material esotérico, alguns poucos livros
de arte e literatura. Mas este livro estava em uma prateleira de assuntos diversificados.
Li a orelha sem muita atenção, paguei correndo porque a palestra já ia começar,
e por isso não imaginei que levaria para casa mais do que um simples livro de
ficção, com uma bruxa qualquer como personagem central.
Só
no dia seguinte, folheando e começando a leitura do livro, descobri com
surpresa e alegria que havia feito uma excelente compra. De fato, é a biografia
de Johannes Kepler, astrônomo e astrólogo contemporâneo de Galileu Galilei, um
dos maiores visionários de seu tempo. O título evoca toda a intriga religiosa
do século XVII, a consolidação do protestantismo na Europa, de sua rivalidade e
dos conflitos com a secular igreja romana, ao fato do próprio Kepler ter sido
um homem de profunda fé cristã, e um protestante que muito interessava aos
jesuítas. Mas refere-se, diretamente, ao fato de sua mãe Katharina ter sido
acusada e julgada por bruxaria. Por fim, o próprio Kepler seria excomungado de
sua igreja por suas heréticas idéias, por toda uma vida pesquisando provas de
que a terra não era o centro do universo, mas sim girava em torno do sol, e por
sua insistência em ver Deus revelar-se mais pela harmonia do Universo, do quê
creditando ao homem o título da maior criação divina.
As
intrigas religiosas são parte importante da biografia, ao focar a dependência
dos homens de ciência nascidos no Renascimento, das benesses e do mecenato
pelos homens de fortuna, quer fossem nobres, quer fossem os poderosos da igreja.
Neste ponto, ler a biografia de Kepler assemelha-se às de Michelangelo, Da
Vinci ou Caravaggio. Nenhum deles é realmente livre para exercer seu ofício ou
sua arte, todos dependem da boa vontade, do acolhimento e da remuneração de
algum poderoso. E assim, as intrigas passam a ser parte inerente de suas
biografias, e que, penso, não podem ser entendidas sem o contexto de época. É
impressionante o que Kepler consegue fazer, considerando a imensa quantidade de
dificuldades, problemas e conflitos que cerca toda a sua vida. Mas terminei o
livro com uma sensação de empatia, pensando se, para ele, a persistência não
adveio da sensação reconfortante de olhar a imensidão do universo,
aparentemente tão mais calma e perfeita do quê a mesquinhez da realidade
cotidiana.
quarta-feira, 6 de março de 2013
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI
Vou falar de... NOVELA, acredita?
Mas eu queria agradecer aos autores de LADO A LADO, uma novela que passa na Rede Globo de Televisão e está na última derradeira semana, pelo trabalho primoroso.
Novela de
João Ximenes Braga
Claudia Lage
Escrita com
Chico Soares
Douglas Tourinho
Fernando Rebello
Jackie Vellego
Maria Camargo
Nina Crintzs
Supervisão de Texto
Gilberto Braga
Vi muito pouca divulgação sobre essa novela. Algo que lamento, porque foi um trabalho muito bonito, levantou temas importantíssimos para compreender a contemporaneidade, e merecia mais divulgação/discussão do que efetivamente recebeu.
(site oficial, prá quem quiser conferir: http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/creditos.html)
Há muito tempo não assistia novela.
Em parte, porque mamãe faleceu... Durante anos, assistirmos juntas a alguma novela para comentar nos telefonemas diários, era parte da nossa rotina. Gostava especialmente das novelas de época (como é o caso do Lado a Lado), porque traziam as lembranças da juventude dela, e comentários muito peculiares.
Lembro da vez em que deu risada de uma personagem de época que pegava o ônibus para ir a algum lugar do Rio de Janeiro: naquela época, não haviam ônibus, só trem. Da saudade dela dos vestidos balão com sapato de boneca e meias três-quartos, das aulas dadas nas escolas rurais sempre distantes, dos cursos de férias na capital. Também haviam as lembranças do tempo de guerra, de quando minha mãe se voluntariou para servir de enfermeira e lutar contra o demoníaco Hitler, e vovô proibiu terminantemente, restrição que ela só iria entender no fim do conflito, quando toda a cidadezinha de interior onde então morava se mobilizou para a festa de chegada de seus "heróis-soldados", a banda no coreto tocando a todo vapor, bandeirinhas enfeitando a estação de trem, a expectativa de toda a pequena população...e então o trem chega, para, abre as portas... e uniformizados, descem os aleijados, homens com braços e pernas faltando, e pior ainda, os ostensivamente loucos dando risadas histéricas, e tudo o que mais de deprimente se possa imaginar dos cacos humanos que a guerra devolve.
Conversávamos tanto!
A novela, nada mais que um pretexto.
Depois que ela faleceu, olhei as novelas como mera distração, e nenhuma me interessou.
Não que não goste de novelas.
Na verdade, acho que tanto novelas como minisséries, tem sua função, e podem ser uma forma divertida de aprendizado e de discussão de temas sociais e/ou polêmicos.
E não acredito que SÓ o meio de comunicação - no caso, TV aberta -, por si só possa ser eleito razão suficiente para endeusar ou menosprezar qualquer trabalho. Sempre achei bobagem querer um julgamento único e final a um trabalho artístico, pior ainda se o único critério é seu sucesso de público.
Mas... há anos não as assistia.
Porque o enredo não interessou, porque cansava de ficar no sofá, porque... porque...
Mas neste fim de ano, usufruindo das minhas curtas férias, ligo a televisão esperando o jornal local que começa em seguida.
E lá está, na novela de época: início do século XX, e a jovem... DIVORCIADA?
Como assim?
Erro crasso, não há "divórcio" nesta época!
Existe, sim, o desquite, e é outro regime jurídico, diferente...
Fiquei tão brava com o erro, que passei a ligar a televisão mais cedo, para conferir se o erro era mesmo um erro, ou se não fui eu a escutar errado.
Pois bem: havia escutado certíssimo, e o equívoco foi repetido várias vezes. Minha filha comentou que houve até manifestação "facebook" sobre a mesma questão.
Porém...
Até agora, penso se não foi proposital, um erro prá chamar a atenção de pessoas... como eu.
Porque desde então, passei a assistir a tal novela, encantada com o enredo, com o figurino, com a forma delicada de tratar questões tão polêmicas, posições tão extremadas na época que repercutem até hoje na sociedade, sutil mas igual. Feminismo, escravatura, preconceitos de todos os tipos, carnaval e cordões de rua, o início das favelas, o (sempre difícil) saneamento básico, o abismo das classes sociais.
E o que é aquele guarda roupa da Camille Pitanga/Isabel? PURO ART NOUVEAU, que coisa maisssss linnnndaaaa, eu babo de olhar! Ah, sim, tbém quero um teatro prá mim. Um teatro pequeno, com atores dramáticos no palco e na vida real!
(do figurino, veja também http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/Fotos/fotos/2012/11/poderosa-isabel-volta-da-europa-ainda-mais-linda-e-com-visual-repaginado.html, e ainda http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/Fotos/fotos/2013/01/isabel-danca-para-constancia-e-revela-todos-que-ex-baronesa-roubou-elias-quando-era-bebe.html)
E nesta última semana, pasmem, lembraram até dos hospícios!, a sentença de morte branda tão comum para a época. Assisto, lembrando de Camille Claudel, 30 anos confinada aguardando a morte, ela como tantas outras mulheres de alma livre e opinião forte. Lembrei também de Nise da Silveira, e do trabalho no Museu do Inconsciente.
Mas não é fácil chegar a tempo de assistir ao capítulo. A novela passa no horário das seis, mas "seis" é o horário mais cedo que consigo terminar meu expediente aqui no escritório. E ainda tenho que voltar prá casa! É uma novela prá conseguir assistir a novela. Uma desculpa e um jeitinho de sair minutos mais cedo, correndo pro ponto de ônibus e torcendo prá não encontrar nenhum engarrafamento pela frente, descer atropelada as quadras até em casa e, com sorte, ainda pego a parte final da novela.
No fim, é divertido, inusitado.
Foi um jeito delicioso de começar cada noite.
E porque não?
Mas eu queria agradecer aos autores de LADO A LADO, uma novela que passa na Rede Globo de Televisão e está na última derradeira semana, pelo trabalho primoroso.
Novela de
João Ximenes Braga
Claudia Lage
Escrita com
Chico Soares
Douglas Tourinho
Fernando Rebello
Jackie Vellego
Maria Camargo
Nina Crintzs
Supervisão de Texto
Gilberto Braga
Vi muito pouca divulgação sobre essa novela. Algo que lamento, porque foi um trabalho muito bonito, levantou temas importantíssimos para compreender a contemporaneidade, e merecia mais divulgação/discussão do que efetivamente recebeu.
(site oficial, prá quem quiser conferir: http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/creditos.html)
Há muito tempo não assistia novela.
Em parte, porque mamãe faleceu... Durante anos, assistirmos juntas a alguma novela para comentar nos telefonemas diários, era parte da nossa rotina. Gostava especialmente das novelas de época (como é o caso do Lado a Lado), porque traziam as lembranças da juventude dela, e comentários muito peculiares.
Lembro da vez em que deu risada de uma personagem de época que pegava o ônibus para ir a algum lugar do Rio de Janeiro: naquela época, não haviam ônibus, só trem. Da saudade dela dos vestidos balão com sapato de boneca e meias três-quartos, das aulas dadas nas escolas rurais sempre distantes, dos cursos de férias na capital. Também haviam as lembranças do tempo de guerra, de quando minha mãe se voluntariou para servir de enfermeira e lutar contra o demoníaco Hitler, e vovô proibiu terminantemente, restrição que ela só iria entender no fim do conflito, quando toda a cidadezinha de interior onde então morava se mobilizou para a festa de chegada de seus "heróis-soldados", a banda no coreto tocando a todo vapor, bandeirinhas enfeitando a estação de trem, a expectativa de toda a pequena população...e então o trem chega, para, abre as portas... e uniformizados, descem os aleijados, homens com braços e pernas faltando, e pior ainda, os ostensivamente loucos dando risadas histéricas, e tudo o que mais de deprimente se possa imaginar dos cacos humanos que a guerra devolve.
Conversávamos tanto!
A novela, nada mais que um pretexto.
Depois que ela faleceu, olhei as novelas como mera distração, e nenhuma me interessou.
Não que não goste de novelas.
Na verdade, acho que tanto novelas como minisséries, tem sua função, e podem ser uma forma divertida de aprendizado e de discussão de temas sociais e/ou polêmicos.
E não acredito que SÓ o meio de comunicação - no caso, TV aberta -, por si só possa ser eleito razão suficiente para endeusar ou menosprezar qualquer trabalho. Sempre achei bobagem querer um julgamento único e final a um trabalho artístico, pior ainda se o único critério é seu sucesso de público.
Mas... há anos não as assistia.
Porque o enredo não interessou, porque cansava de ficar no sofá, porque... porque...
Mas neste fim de ano, usufruindo das minhas curtas férias, ligo a televisão esperando o jornal local que começa em seguida.
E lá está, na novela de época: início do século XX, e a jovem... DIVORCIADA?
Como assim?
Erro crasso, não há "divórcio" nesta época!
Existe, sim, o desquite, e é outro regime jurídico, diferente...
Fiquei tão brava com o erro, que passei a ligar a televisão mais cedo, para conferir se o erro era mesmo um erro, ou se não fui eu a escutar errado.
Pois bem: havia escutado certíssimo, e o equívoco foi repetido várias vezes. Minha filha comentou que houve até manifestação "facebook" sobre a mesma questão.
Porém...
Até agora, penso se não foi proposital, um erro prá chamar a atenção de pessoas... como eu.
Porque desde então, passei a assistir a tal novela, encantada com o enredo, com o figurino, com a forma delicada de tratar questões tão polêmicas, posições tão extremadas na época que repercutem até hoje na sociedade, sutil mas igual. Feminismo, escravatura, preconceitos de todos os tipos, carnaval e cordões de rua, o início das favelas, o (sempre difícil) saneamento básico, o abismo das classes sociais.
E o que é aquele guarda roupa da Camille Pitanga/Isabel? PURO ART NOUVEAU, que coisa maisssss linnnndaaaa, eu babo de olhar! Ah, sim, tbém quero um teatro prá mim. Um teatro pequeno, com atores dramáticos no palco e na vida real!
(do figurino, veja também http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/Fotos/fotos/2012/11/poderosa-isabel-volta-da-europa-ainda-mais-linda-e-com-visual-repaginado.html, e ainda http://tvg.globo.com/novelas/lado-a-lado/Fotos/fotos/2013/01/isabel-danca-para-constancia-e-revela-todos-que-ex-baronesa-roubou-elias-quando-era-bebe.html)
E nesta última semana, pasmem, lembraram até dos hospícios!, a sentença de morte branda tão comum para a época. Assisto, lembrando de Camille Claudel, 30 anos confinada aguardando a morte, ela como tantas outras mulheres de alma livre e opinião forte. Lembrei também de Nise da Silveira, e do trabalho no Museu do Inconsciente.
Mas não é fácil chegar a tempo de assistir ao capítulo. A novela passa no horário das seis, mas "seis" é o horário mais cedo que consigo terminar meu expediente aqui no escritório. E ainda tenho que voltar prá casa! É uma novela prá conseguir assistir a novela. Uma desculpa e um jeitinho de sair minutos mais cedo, correndo pro ponto de ônibus e torcendo prá não encontrar nenhum engarrafamento pela frente, descer atropelada as quadras até em casa e, com sorte, ainda pego a parte final da novela.
No fim, é divertido, inusitado.
Foi um jeito delicioso de começar cada noite.
E porque não?
O MAPA QUE MUDOU O MUNDO, de Simon Winchester
Se há uma maneira deliciosa de aprender sobre algo que verdadeiramente não se sabe, é através das histórias romanceadas. Comecei este costume com arqueologia: lia os livros de pesquisa, do mesmo jeito que lia romances ambientados, sem contar os inúmeros filmes ao melhor estilo "Indiana Jones".
Mas fui adiante, e passe a procurar, também, livros romanceados sobre assuntos dos quais nada conheço.
É uma aventura interessante. Como abrir janelas para um mundo desconhecido, descobrir como vidas inteiras foram dedicadas a algo que eu nunca tinha realmente prestado atenção.
É o caso do romance de Simon Winchester, O MAPA QUE MUDOU O MUNDO - Willian Smith e o nascimento da geologia moderna (em português, com tradução de Suyan Marcondes Orsbon, editado pela Editora Record, 2004).
Comprei o romance em abril de 2011. Chamou a atenção a edição curiosa: a contracapa, com suas tradicionais orelhas, foram impressas em papel de qualidade (tamanho A2, acho) sobre cópia do mapa de que trata o livro, devidamente dobrada. A gente compra o livro, mas junto ganha um "poster".
A história, que narra a vida de William Smith com suas descobertas e o esforço de publicação de seus mapas, está exatamente no meio termo entre ficção e ensaio. Tudo se passa na virada do século XVIII e início do século XIX, onde pesquisas científicas sobre fósseis ainda poderiam ser compreendidas como uma heresia. Isso porque ainda havia uma maioria de pessoas que acreditavam no dogma medieval cristão, de que o mundo como o conhecemos foi criado há 5 mil anos atrás.
Portanto, William Smith, pesquisando fósseis e rochas, e tentando entender a evolução da terra, o fez caminhando em terreno muito perigoso. Esta a ciência que, nas décadas que se seguiram, comprovou o erro de cálculo feito nos mosteiros medievais, a partir de interpretações bíblicas, para fixar a idade do mundo. Mas se hoje isso é um fato óbvio, na época de Winchester o assunto era um tabu quase absoluto.
Outra curiosidade do texto, é a construção das sociedades científicas da época, sua política de inclusão e exclusão e as fofocas de bastidores das fortunas e dos plágios na Sociedade Geológica de Londres, onde Smith batalhou por reconhecimento público.
Incrível como um livro biográfico, que conta a história da construção de um grande mapa (publicado em 1815, pintado a mão), possa ser tão interessante. A vida de Willian Smith, porém, nada tem de trivial: além das dificuldades inerentes da empreitada a que se propôs por toda uma vida, enfrentou ainda a doença mental de uma esposa ninfomaníaca, desemprego, falência, plágio de seus trabalhos e melhores obras, o repúdio de seus pares, terminando com a superação e o reconhecimento público tanto de suas descobertas como de sua persistencia.
Para mim, filha de uma época onde se supõe que os mapas se originem de fotografias tiradas por distantes e potentes satélites, foi uma surpresa envolvente ler da vida aventuresca dos primeiros exploradores, e das inúmeras dificuldades, mas com uma vivência gloriosa, daqueles que desenharam e pintaram à mão os primeiros completos mapas geográficos/geológicos da era moderna.
(Em compensação, quando terminei a leitura, fiquei um tantinho triste, pensando em quão modesta é a minha contribuição para este mundo, quando comparada com o esforço de um Willian Smith... Esta é a parte "chata" em ler livros escritos com base em eventos reais, porque não consigo me furtar às comparações subsequentes, esta época e aquela época, estes valores e aqueles valores, minha coragem e o desafio de outros. Ainda acho que nasci no século errado.)
Mas fui adiante, e passe a procurar, também, livros romanceados sobre assuntos dos quais nada conheço.
É uma aventura interessante. Como abrir janelas para um mundo desconhecido, descobrir como vidas inteiras foram dedicadas a algo que eu nunca tinha realmente prestado atenção.
É o caso do romance de Simon Winchester, O MAPA QUE MUDOU O MUNDO - Willian Smith e o nascimento da geologia moderna (em português, com tradução de Suyan Marcondes Orsbon, editado pela Editora Record, 2004).
Comprei o romance em abril de 2011. Chamou a atenção a edição curiosa: a contracapa, com suas tradicionais orelhas, foram impressas em papel de qualidade (tamanho A2, acho) sobre cópia do mapa de que trata o livro, devidamente dobrada. A gente compra o livro, mas junto ganha um "poster".
A história, que narra a vida de William Smith com suas descobertas e o esforço de publicação de seus mapas, está exatamente no meio termo entre ficção e ensaio. Tudo se passa na virada do século XVIII e início do século XIX, onde pesquisas científicas sobre fósseis ainda poderiam ser compreendidas como uma heresia. Isso porque ainda havia uma maioria de pessoas que acreditavam no dogma medieval cristão, de que o mundo como o conhecemos foi criado há 5 mil anos atrás.
Portanto, William Smith, pesquisando fósseis e rochas, e tentando entender a evolução da terra, o fez caminhando em terreno muito perigoso. Esta a ciência que, nas décadas que se seguiram, comprovou o erro de cálculo feito nos mosteiros medievais, a partir de interpretações bíblicas, para fixar a idade do mundo. Mas se hoje isso é um fato óbvio, na época de Winchester o assunto era um tabu quase absoluto.
Outra curiosidade do texto, é a construção das sociedades científicas da época, sua política de inclusão e exclusão e as fofocas de bastidores das fortunas e dos plágios na Sociedade Geológica de Londres, onde Smith batalhou por reconhecimento público.
Incrível como um livro biográfico, que conta a história da construção de um grande mapa (publicado em 1815, pintado a mão), possa ser tão interessante. A vida de Willian Smith, porém, nada tem de trivial: além das dificuldades inerentes da empreitada a que se propôs por toda uma vida, enfrentou ainda a doença mental de uma esposa ninfomaníaca, desemprego, falência, plágio de seus trabalhos e melhores obras, o repúdio de seus pares, terminando com a superação e o reconhecimento público tanto de suas descobertas como de sua persistencia.
Para mim, filha de uma época onde se supõe que os mapas se originem de fotografias tiradas por distantes e potentes satélites, foi uma surpresa envolvente ler da vida aventuresca dos primeiros exploradores, e das inúmeras dificuldades, mas com uma vivência gloriosa, daqueles que desenharam e pintaram à mão os primeiros completos mapas geográficos/geológicos da era moderna.
(Em compensação, quando terminei a leitura, fiquei um tantinho triste, pensando em quão modesta é a minha contribuição para este mundo, quando comparada com o esforço de um Willian Smith... Esta é a parte "chata" em ler livros escritos com base em eventos reais, porque não consigo me furtar às comparações subsequentes, esta época e aquela época, estes valores e aqueles valores, minha coragem e o desafio de outros. Ainda acho que nasci no século errado.)
segunda-feira, 4 de março de 2013
MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI
Semana passada alguém me perguntou (com aquele jeitinho básico de deboche...), se eu acreditava em alienígenas. Nenhuma vontade de discutir, então só respondi o básico: "o universo é grande demais para acreditar que só existe vida inteligente na Terra".
Mas o que eu acredito, é bem diferente.
Há uma coisa de que gosto muito, neste início de século XXI: qualquer um de nós pode acreditar no que quiser.
Acho que isso se dá, em parte, pela tecnologia de comunicação. Há um senso de magia em ver som e imagem através dos rádios, televisores, cinemas, telas de computadores e afins. Há uma dificuldade real em distinguir o que é verdade, o que é mentira e o que é ficção, dentro da massa excessivamente informativa diariamente distribuída por esses meios de comunicação. O resultado, penso, é que posso acreditar no que eu quiser. Ou não acreditar. Não faz diferença.
Prá mim, a possibilidade de vida inteligente alienígena parece... algo natural. E também explica aquela sensação incômoda, de que "deus existe, mas não se importa". Porque quanto mais comparo o tamanho da Terra com o do sistema solar, e então com a galáxia, e então com o universo que tão pouco conhecemos, tanto mais parece exdrúxulo que o Grande Senhor do Universo, o Criador de Todas as Coisas, fosse se preocupar com o que cada individuo faz ou pensa em sua vidinha cotidiana, seguindo um conjunto de regras que nem sempre atentam à natureza que - em tese -, também foi Ele quem criou. Mas consigo imaginar a presença de energias protetoras nesta função, anjos, santos, entidades boas e más. E consigo imaginar a presença alienígena... porque não?
O que leva a outro pensamento.
E se nós/humanos, formos a "raça alienígena" deste planeta?
Quando penso nesta hipótese, claro que penso na coincidência inexplicada, de que só a espécie humana desenvolveu linguagem, raciocínio e tecnologia como os humanos o fizeram. Concordo com a idéia de que, se isso é uma evolução "natural", haveriam outras espécies animais igualmente capazes de um desenvolvimento intelectual compatível com o nosso.
Mas não é só.
Todas as religiões que conheço, prometem que a "alma imortal" irá deixar essa Terra para, através de uma "evolução espiritual", chegar num tal "Paraíso" que fica bem longe daqui.
E não é raro encontrar a definição da Terra, ou a imersão da vida dentro de um corpo físico, vista como um "castigo divino".
Porque?
Se somos animais "da terra", porque olhamos o espaço com tamanho saudosismo, construímos as ilusões de perfeição nas estrelas, lugares até hoje inatingíveis, dando tão pouco valor àquilo que é natureza/natural?
E quanto conhecimento, já não perdemos nesta longa trajetória?
As recentes descobertas arqueológicas (que me fascinam, aliás), estão datando construções megalíticas em 12 a 15 mil anos atrás. Construções com o corte, transporte e encaixe de pedras tão monumentais, que nenhuma tecnologia atual conhecida seria capaz de reproduzir.
Mas são civilizações extintas. Povos de que não sabemos sequer os nomes, muito menos suas histórias ou crenças. São agora, apenas construções, tantas delas submersas, uma presença fantamasgórica que ecoa um poder imenso hoje perdido no tempo.
Quem eram eles?
Quanto não sabemos, de nossa própria história?
É tanto, mas TANTO tempo, que qualquer coisa pode ter acontecido nestes milênios.
Não acredito, tratando-se de humanidade, em evolução linear.
Somos uma espécie que... esquece. Esquece tudo, no passar das gerações. Esquece a história, erros e acertos, o nome de seus ancestrais, os aprendizados.
E, na história conhecida da humanidade -tantas vezes!, nos orgulhamos de esquecer. Em nome de um novo deus, um novo governante ou uma nova idéia, alegremente apaga-se o passado como se jamais tivesse existido, junto com tudo o que esse passado represente, inclusive seus aprendizados.
Como espécie, quanto já soubemos, e quanto conhecimento já se perdeu?
Talvez, já tenhamos viajado pelas estrelas.
Talvez, já tenhamos convivido com alienígenas.
Talvez, nós mesmos sejamos, em parte, alienígenas vivendo o exílio de um paraíso esquecido.
Quem pode saber?
Assinar:
Postagens (Atom)







