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domingo, 7 de julho de 2013

LIVRE, de Cheryl Strayed

Quando comecei a ler LIVRE, A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DO RECOMEÇO, de Cheryl Strayed, lembrei de um episódio, uns dois anos atrás, quando uma professora que não simpatizava comigo e, ciente da minha paixão por literatura, fez questão de dizer em voz alta, para toda a turma reunida, do seu desprazer em ler "romances"  - imagine falado com aquele tom pejorativo, de puro tédio -, porque não conseguia entender qual a graça em ler uma história que não é "verdadeira", que conta algo que nunca aconteceu, é apenas a imaginação de um escritor. (Leio em português, na tradução de Débora Chaves, editado pela Editora Objetiva em 2012)


Pois LIVRE é uma literatura, que talvez agradasse até mesmo à aquela professora ranzinza que não gosta de fantasia.
Não é uma "história inventada", mas sim o depoimento da autora Cheryl Strayed sobre como, aos 22 anos, após a inesperada morte prematura de sua mãe, o distanciamento dos irmãos e um divórcio, decidiu fazer uma trilha de longa distância, a caminhada pela Pacific Crest Traisl atravessando a pé do Deserto do Mojave até o final do Oregon/EUA.

Quando era adolescente, existia um mote que a gente sempre repetia, quando tudo acontecia rápido demais para absorver tanta informação (normalmente, semana de provas...). A gente repetia, uma para as outras, PAREM O MUNDO QUE EU QUERO DESCER! Provável seja uma frase de Mc Luhann, ou de algum outro dos meus autores prediletos da época. A memória deletou a autoria, mas a frase eu nunca esqueci.

De fato, não é um livro de "fantasia". As tragédias da autora/personagem são trazidas pela memória, as aventuras estão dentro do que se poderia esperar dos riscos, esforço e perigos de uma trilha de longa distância. Ainda assim, é um livro envolvente, daqueles em que a gente confunde se está mesmo lendo, ou se não estamos nós/leitores, atravessando aquela trilha pensando também em nossos próprios problemas.

Perdi a conta do número de vezes em que "conversei" com a autora/personagem, como se pensasse duas coisas ao mesmo tempo, o que eu lia e as minhas próprias reflexões que se misturavam. Pelo menos uma vez, lembro de ter respondido a ela. Foi na parte em que ela tem a opção de continuar a trilha com outros trilheiros que conheceu no acampamento, mas prefere prosseguir sozinha, e é sozinha que estranha sua própria decisão. Foi uma (das várias) partes em que me identifiquei com a autora/personagem, e até comentei com ela (???) que na primeira vez que fui morar sozinha, uma amiga comentou que ia estranhar "como a gente pensa!", quando fica só, e como isso é verdade. Acho que também teria seguido sozinha... e segui, de certa forma, junto com o texto.

Mais de uma vez, fantasiei o que aconteceria, se simplesmente jogasse tudo para o alto, colocar uma mochila nas costas e sair caminhando. Porque, como a autora/personagem, também tive as fases da vida em que parece que tudo dá errado, e que reverter ou recomeçar será um esforço tão extenso, e será que vale a pena? Há uma carta do meu tarot que fala deste momento, quando caminhamos de mãos vazias em direção ao abismo (ou ao desconhecido). Nunca o fiz, mas lendo LIVRE, ficou a pergunta: quem eu seria "hoje" (ou quem seria "você"?), se tivesse mesmo colocado a mochila nas costas e partido?









quinta-feira, 4 de julho de 2013

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI

Pobre blog, semiabandonado nestas semanas tão conturbadas!
Mas não teve jeito: a vida "virtual" teve que ceder espaço à vida REAL, porque coisas demais aconteceram ao mesmo tempo.

Primeiro, duas semanas intensas de manifestações de rua, milhares de pessoas marchando pelas cidades do país inteiro, reivindicando e protestando. Tudo começou com os aumentos das passagens de ônibus... que autoridade alguma deu importância. Mas, longe de perder força, a indiferença dos governantes só fez crescer as manifestações. Em uma semana, o movimento era nacional. Em uma semana, haviam listas de reivindicações escritas nos cartazes da população nas ruas. Na semana seguinte (finalmente), os políticos entenderam que o movimento veio prá ficar.

Foi bonito de ver, foi emocionante participar.
Foi gostoso espalhar na voz e na Net, a frase que estava entalada na garganta há anos.
VOCÊ NÃO ME REPRESENTA. Não, senhor político, o senhor não me representa. Não, partidos políticos, vocês não me representam. Não aos vândalos oportunistas que esperavam a multidão passar para depredar nossas cidades... vocês não me representam. E não, imprensa tendenciosa, mídia politiqueira, jornalismo oportunista, vocês também não me representam.

Não foi um movimento "conservador", nem liberal,.
Foi o povo na rua.
Não foi um movimento "partidário", nem foi algum tipo de "golpe de estado".
Foi o povo na rua.
Sem líderes. Sem representantes.
Cada um com seu cartaz caseiro, escrito à mão, levantado com palavras de ordem que eram inventadas na hora, no meio das passeatas, da mesma forma aleatória como foram definidos os primeiro percursos das multidões.
Foi bonito de ver!

E neste meio tempo...sim, o Brasil foi campeão na Copa das Confederações.
Claro que assisti aos jogos (pela televisão) e vibrei com cada gol.
E porque não?

Nem por isso a vida para. O trabalho seguiu em frente, prazos sobre prazos, reuniões sobre reuniões. Tanta adrenalina, e já voltei aos trabalhos. Um concurso de contos foi o bastante para estipular um prazo e revisar os quatro contos que já tinha esboçado, e que juntos fazem o mínimo para concorrer. Não tenho expectativa de premiação, mas gosto dos prazos que estes concursos me impõem. Acho necessário, enquanto esta vida não me traz muitas opções além de escrever prá gaveta. Não faz mal. Ninguém lê, mas estou escrevendo sempre um pouquinho melhor. E com mais paciência prá revisar os textos (coisa chata! E parece que nunca termina... sempre tem alguma coisa prá mudar...). E desenhei, e pintei, e coloquei uma argila na mesa. Vou fotografar, depois posto alguma coisa aqui.

E então, meu blog ficou aqui, paradinho, às moscas.
Os livros lidos agora fazem uma pequena torre do lado da cama, recuso-me a guarda-los enquanto não tiver resenhado aqui um pouco de seu conteúdo. Mas isso, não farei hoje. É tarde, estou cansada, nem o relatório das exposições e do curso não consegui fazer por completo.

Não faz mal.
Um pouco a cada dia
Um passo de cada vez.




OFICINA DE INVERVENÇÕES URBANAS, com a estátua em gesso em exposição na EMBAP
2013







domingo, 9 de junho de 2013

INFERNO, de Dan Brown

Superpopulação! Nossa, a quanto tempo procurava um livro que abordasse, pela ficção, o tema da superpolução neste início de século XXI! É um tema "tabu"... Não é para qualquer pessoa, conseguir pesquisar sobre este assunto. E nunca soube de forma melhor de começar a pensar (e pesquisar) sobre um assunto "tabu", do que através da ficção.

Dan Brown tem a "receita" dos livros de ficção que começo a ler, e não consigo parar senão quando viro a última página (e com vontade de ler mais). Desta vez, não foi diferente. Um assunto muito atual e extremamente polêmico, misturado a obras e mais obras de arte renascentista ou medieval vistas pelo olhar simbolista de um historiador, e uma narrativa construída no clássico formato dos livros de aventura. Não resisto, não tem como. Comprei o livro pretendendo tê-lo como leitura por, pelo menos, uma semana. Li inteiro no mesmo dia, avançando até alta madrugada, sem conseguir dormir. Ainda bem que são poucos autores que conseguem me "pegar" deste jeito, senão como teria orçamento prá tanto livro? (Leio em português, na tradução de Fabiano Morais e Fernanda Abreu, edição de 2013 da Editora Arqueiro Ltda).

Será que vou infringir a alguma lei de direitos autorais ao transcrever um parágrafo do livro? Espero que não. É difícil parafrasear conceitos que estão bem sintetizados na fala de um personagem, na exata questão que tenho perguntado tantas vezes quais as consequências, quando penso no "futuro do mundo" entre uma atividade e outra.

Superpopulação...
O vilão da história (sim, é o vilão quem trata dos assuntos polêmicos, "tabu"... quem mais seria?) resume a questão, nestas palavras: " - Pense no seguinte: a população da TErra levou milhares de anos, desde a aurora da humanidade até o início do século XIX, para atingir um bilhão de pessoas. Então, de forma estarrecedora, precisou apenas de uns cem anos para duplicar e chegar a dois bilhões, na década de 1920. Depois disso, em menos de cinquenta anos, a população tornou a duplicar para quatro bilhões, na década de 1970.n Como a senhora pode imaginar, muito em breve chegaremos aos oito bilhões. Só hoje, a raça humana acrescentou outras 250 mil pessoas ao plane Terra. Um quarto de milhão. E isso acontece todos os dias. Atualmente, a cada ano, acrescentamos ao planeta um pouco mais do que o equivalente a toda a população da Alemanha." (obra citada, fls. 101).

E adiante: "Sabia que, se viver mais 19 anos, até os 80, verá a população triplicar ao longo da sua vida? Triplicar, no tempo de uma única vida. Pense nas implicações. (...) Espécies animais estão entrando em extinção num ritmo aceleradíssimo. A demanda por recursos naturais cada vez mais escssos é astronômica. É cada vez mias dífícil encontrar água potável. De acordo com o parâmetro biológico, nossa espécie já excedeu sua sustentabilidade numérica. (...) Qualquer biólogo ou estatístico ambienta. lhedirá que a maior chance de sobrevivência a longo prazo para a humanidade acontece com uma população de cerca de quatro bilhões de habitantes (...) " (obra citada, respectivamente fls. 102 e 105).

A Divina Comédia, de Dante Aligheri, interpretada pela tela do Inferno de Botticelli complementam meu fascínio no livro. Quantas vezes já me perguntei se a sensação de solidão da contemporaneidade não advém, diretamente, da superpopulação? Se informação demais "emburrece", porque gente "demais" não poderia nos isolar? O paradoxo dos extremos, que faz com que coisas opostas se tornem a mesma coisa.

É um livro que faz pensar.
Não acredito que alguém possa olhar o gráfico do crescimento da população mundial ao longo da história (obra citada, fls. 103), ou o dos indicadores negativos do grau de poluição humana na terra (obra citada, fls. 136), sem parar para pensar sobre o futuro que nos aguarda. E para exercícios de futurologia, em uma previsão algo macabra, o quê melhor que a ficção?

O pior foi constatar que é um dos livros em que me identifiquei mais com o vilão, do que com os heróis. Li o livro feliz em pensar que a decisão sobre o quê é possível fazer, passa muito longe das minhas responsabilidades. Mas a solução encontrada pelo cientista-vilão, considerados todos os parêmetros, é de ser pensada: realmente uma catátrofe? Ou não seria mesmo uma solução indolor e satisfatória? Acordei no dia seguinte ainda sem uma opinião formada, mas feliz em ter lido um livro que reflete minhas indagações.






sexta-feira, 17 de maio de 2013

PARA SEU PRÓPRIO BEM, de Bárbara Ehrenreich e Deirdre English

Foi um professor de História da Arte quem primeiro me fez pensar que vivemos uma época onde pessoas que ainda vivem na Idade da Pedra (referindo-se aos miséráveis "sem teto" nos grandes centros urbanos, ou os refugiados das guerras tribais africanas, entre outros) convivem com outros que parecem viver em filmes de ficção científica (referindo-se aos pesquisadores de tecnologia de ponta, astronautas e milionários, entre outros).

Lembrei disto, lendo PARA SEU PRÓPRIO BEM - 150 anos de conselhos de especialistas para mulheres, de Bárbara Ehrenreich e Deirdre English (leio em português, na tradução de Beatriz Horta e Neuza Campelo, na edição de 2003 da Editora Rosa dos Tempos).

Comecei este livro, sequência imediata do EFEITO LÚCIFER (que já comentei em outro post). Mais um livro ótimo, que comprei por acaso em um sebo que também vende livros novos em rescaldo de edições antigas (o original deste livro é de 1978, e a edição que leio tem dez anos, é de 2003.)

Chamou a atenção o título curioso, e a capa vazada onde se vê parte da reprodução de uma tela renascentista impressa por dentro. A orelha informava que o livro abordaria "... as síndromes da feminilidade, os saberes da economia doméstica capturados pela publicidade, a tragédia das donas de casa neuróticas e a herança das mães superprotetoras...", pela análise múltipla dos chamados especialistas, fossem estes "... ginecologistas, obstetras, psicanalistas, conselheiros matrimoniais, pedagogos, assistentes sociais...", em extenso período histórico, desde "... a época das curandeiras aos dilemas da mãe-esposa-trabalhadora".

Não poderia ter feito escolha melhor!
EFEITO LÚCIFER analisa a (grande, insidiosa) influência da sociedade, na (nossa) escolha individual, a partir do experimento da prisão de Stanford, e mais duas décadas de observação e pesquisa a partir dos genocídios, prisões militares e hospícios.
PARA SEU PRÓPRIO BEM tem o mesmo foco de análise, só que voltado às políticas públicas que afetaram a realidade da mulher, da família e da criança, desde a Idade Média e a "caça às bruxas" até a "Questão da Mulher" com ênfase ao início e primeira metade do século XX.

Ainda estou absorvendo a quantidade de "verdades sociais" que aprendi como expressão de bom senso, e agora descubro que eram apenas políticas públicas antigas cuja história se perdeu.

Tipo...
Claro que eu sabia que um número expressivo das "bruxas" condenadas pela Santa Inquisição, eram curandeiras e parteiras de suas aldeias de origem. O que eu não sabia, era que os estudantes de medicina da época passavam seus anos de academia decorando teologia cristã, Platão e Aristóteles, e assim aprendendo a desprezar o corpo como algo servil e aviltante, enquanto que apenas em um único livro sobrevivente de alguma data entre 1098 a 1178, propriedade de uma herborista (leia-se: bruxa) da mesma época, lista 213 variedades de plantas, 55 árvores e dezenas de derivados minerais e animais e suas propriedades curativas, dos quais, evidentemente, os médicos nada sabiam (vide fls.49).
História passada? Pode ser, mas nunca mais estarei isenta de opinião, quando ouvir alguma outra propaganda centralizadora contra a automedicação, difamando a homeopatia, ou o uso das ervas medicinais...

Já a "Questão da Mulher", conhecia um pouco por estudar a ascenção das psiquiatria à posição de ciência através das teses de Freud, e outro tanto pelo estudo social da história da arte sobre as questões de gênero na estética do século XIX e XX. Mas não tinha quase nenhuma informação sobre as políticas públicas que abordaram o assunto, na época dos fatos.

Não sabia, por exemplo, que as mulheres frágeis, doentias ou enlouquecidas que figuravam nos romances e óperas da época, variações da bela Dama das Camélias, ou de sua versão operística, a Violetta da Traviatta, transcenderam as páginas dos livros e das partituras e se tornaram um fato social mensurável. Quem diria que, em 1902, 42% das mulheres internadas nos hospícios tinham bom nível sócio-econômico e educação formal (contra 16% dos homens, vide fls. 142)?
E segue...
Também não sabia que "economia doméstica" pretendeu ser uma "ciência" desenvolvida para estudo e formação de "donas de casa científicas". Idéia esta com retumbante repercussão em seu início, e depois, um fracasso em relação aos seus objetivos (as donas de casa não se tornaram "cientistas do lar", e sim consumidoras do crescente número de produtos fabricados especialmente para elas, de eletrodomésticos a artigos de limpeza), mas um sucesso absoluto de marketing, ao ponto de influenciar a economia americana e se constituir um dos fatores que tornou tal poderio econômico parcialmente dependente do consumo individual (vide Capítulo 07 e fls 230).

Mas este é um livro difícil de resumir...
O impressionante desta leitura, além da quantidade imensa de dados/informações e bibliografia, é a clareza com que as autoras explicam a cronologia dos fatos, permitindo compreender como e porque conhecimentos importantes e até imprescindíveis ao cotidiano simplesmente desapareceram da memória social; ou como fatos que, isolados, são tão absurdos que beiram as raias do ridículo, de fato sobrevivem até hoje mascarados de bom senso...







domingo, 12 de maio de 2013

A FAZENDA BLACKWOOD, de Anne Rice

Ontem reli (pela terceira vez? pela quarta vez?) a história dA FAZENDA BLACKWOOD, de Anne Rice (leio em português, tradução de Alyda Christina Sauer, na edição de 2004 da Editora Rocco).

Sei que as histórias mais famosas da Anne Rice são as Crônicas Vampirescas, histórias do Vampiro Lestat, provavelmente alavancadas pelo (excelente) filme de 1994, homônimo do livro  ENTREVISTA COM O VAMPIRO, que reuniu sob direção de Neil Jordan um elenco estelar, comTom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Christian Slater, Kirsten Dunst e Stephen Rea, entre outros.

Embora tenha assistido o filme e achado ótimo... a verdade é que entre livros e filmes, gosto mais dos primeiros.

Talvez por isso que, inobstante todo o charme de Lestat, tornei-me leitora fiel de Anne Rice depois de ler A HORA DAS BRUXAS, a densa saga das treze bruxas assombradas pelo espírito de uma espécie humanóide quase extinta da face da terra, tão complexa e cheia de desdobramentos que jamais caberia em um único filme (uma minissérie longa, talvez).

A HORA DAS BRUXAS, traz no enredo o Talamasca, uma instituição medieval que, dizem as más línguas, herdou a fortuna dos Templários quando de seu massacre, e que se dedica desde então, através dos séculos da Idade Média e da Inquisição até a atualidade, a observar e registrar em seus arquivos secretos, episódios de paranormalidade, bruxarias e afins. Pois é o Talamasca quem registra a história das bruxas, desde o triste momento em que resgata a filha daquela primeira que invocou o espirito, pobre mulher solitária em uma aldeiazinha esquecida do mundo, e condenada à morte nas fogueiras da Santa Inquisição. A instituição e as bruxas se misturam como consequência de um amor trágico, e o destino daquelas treze mulheres passa a ser interesse do Talamasca, que mantém registro de todos os fatos que, geração a geração, permanecem em escritos enquanto esmaecem na memória da família, que a cada geração enriquece e cresce lado a lado com o destino destas mulheres torturadas.

E qual um prêmio aos leitores, uma vez contada a história das bruxas desde os primórdios (vários volumes), e a história dos vampiros desde os primórdios (mais e mais volumes), o Talamasca e seus pesquisadores, que deveriam ser cientistas isentos mas nunca conseguem se manter à distãncia, acaba por inadvertidamente reunir os personagens díspares, quando bruxas encontram vampiros, e bruxas se tornam vampiros.

A FAZENDA BLACKWOOD é o prêmio dos leitores fiéis.

A história se passa quando todos os personagens principais - Lestat, o Vampiro, e Mona, a bruxa herdeira -, já viveram suas histórias integrais e partiram descompromissados para seu destino no mundo. Desta feita, Tarquim Blackwood, herdeiro e proprietário da Fazenda Blackwood, reunirá a todos em sua propriedade, enredados em sua história.
Ele é um jovem médium, assombrado por um espírito rebelde e por uma maldição familiar que desconhece, cai nas garras de uma vampira antiga, que o transforma contra sua vontade. Desesperado para proteger a família que tanto ama, busca ajuda de Lestat, mesmo sob o risco de ser fulminado em fogo pelo mal humorado vampiro antigo. Lestat decide procurar Merrick, a bruxa vampira e médium, única capaz de lidar com o problema. E em sua jornada em busca de ajuda, Tarquim conhece e se apaixona perdidamente por Mona, a bruxa herdeira da família Mayfair, que reencontro enferma e à beira da morte, tratada pela monossilábica Rowan, a bruxa médica, genial e trágica.

De fato, é possível ler A FAZENDA BLACKWOOD sem conhecer as histórias precedentes. O livro é uma história inteira, com começo, meio e fim, e prescinde conhecer os volumes precedentes. Porém, seria como ler apenas metade da história, sem saber direito como cada personagem chegou onde chegou... Nada das delícias de reencontrar personagens conhecidos, como quem reencontra amigos de longa data, curioso em saber o quê aconteceu depois que as velhas batalhas foram vencidas.







quinta-feira, 9 de maio de 2013

A PROSTITUTA ERRANTE, de Iny Lorentz

Este é um livro para ler de um fôlego só, para lavar a alma das injustiças e ainda viajar pelos vilarejos medievais na Alemanha do 1.400 d.C.

A PROSTITUTA ERRANTE inicia com uma jovem ingênua e romântica, filha de um burguês rico, e um criminoso sem escrúpulos mas detentor de um título de nobreza. Seduzido pela ambição, o pai concorda com a proposta do nobre, prometendo-lhe a filha em casamento nas condições estabelecidas em um pacto antenupcial. Todos os sonhos acabam tragédia já nas primeiras páginas: o pacto era mais uma falcatrua, a jovem é sequestrada, violada, publicamente humilhada, torturada e expulsa da cidade quase à morte, o criminoso assume as propriedades da família, e o pai enganado é dado como desaparecido, quiçá fugitivo.

Resgatada e salva por uma prostituta errante, não há outro caminho a seguir para a jovem, senão também tornar-se prostituta, assim como sua protetora. A contragosto, a jovem só aceita seu destino, quando o vincula a um objetivo final, a vingança contra o homem que tramou sua desgraça. Entretanto, um abismo agora se forma entre eles, pois enquanto o nobre criminoso torna-se cada vez mais rico e poderoso com o passar dos anos, a jovem não é mais do quê uma anônima prostituta, buscando o mais humilhante dos trabalhos nas periferias das feiras públicas e das festas populares.

O livro se torna mais interessante, porque mais tempo trata dos costumes da Idade Média pela visão do povo comum, com seus tipos excêntricos e seus costumes esquecidos. Isso torna o romance, um texto diferente daqueles fundados em fatos históricos contados a partir da biografia dos poderosos.

E embora a história seja como um conto de fadas com final feliz, a trama é verossímel. Mostra o amor que surge tão mais simples e direto, quando a vida já foi destroçada pelo destino e há pouco a perder e muito a construir. Também constrói a idéia de que a ambição desenfreada jamais se satisfaz com um único crime, e por isso lutar pelo direito de outras vítimas é opção plausível para obter a própria justiça.






quinta-feira, 25 de abril de 2013

O EFEITO LÚCIFER, como pessoas boas se tornam más, de PHILIP ZIMBARDO

Carrego prá cima e prá baixo, um livro que mais parece um tijolo (mas que é inacreditavelmente mais leve do que muitos dos livros, menores, com que já andei por aí).


Título chamativo:  O EFEITO LÚCIFER, como pessoas boas se tornam más, de PHILIP ZIMBARDO (na tradução para o português de Tiago Novaes Lima [será que é meu primo?], na 1ª edição de 2012 da Editora Record... mas anoto que o original é de 2007).

Capa chamativa: uma gravura de Escher sobre o famoso estudo da Gestalt figura/fundo, desenhos de anjos em branco e cinza, perfeitamente ajustados com desenhos de demônios em preto e cinza. Escher está na moda, é a coqueluche da maior exposição no maior museu da cidade, o MON.




O livro tem mais de 950 páginas, em tema muito interessante, quase polêmico.
Lembra daquela experiência de laboratório de psicologia, em 1971, o famoso experimento do "presídio de Stanford"?
POISINTÃO, é sobre isso que trata o livro!


Zimbardo era o professor/pesquisador responsável pelo curso - e experimento - de férias, na Universidade de Stanford, onde um grupo de estudantes universitários participou como voluntários, sorteou quem seria "prisioneiro" e quem seria "guarda", para uma experiência que deveria durar duas semanas, mas que só persistiu por metade deste tempo, ante o grau de alterações de personalidade, passividade e agressividade a que os voluntários chegaram em apenas uma semana de experimento.

Esse experimento deu aprofundamento à discussão científica sobre a influência do ambiente, do "sistema político", da autoridade e do local, para determinar o comportamento e reações individuais.  Desde as primeiras notícias, ainda em 1971, foi sempre referência no tema.
Mas o livro foi escrito bem mais tarde, em 2007, depois que o autor já havia maturado não só as análises iniciais feitas subsequente à experiência, mas também novas hipóteses, e um outro olhar a acontecimentos violentos e aparentemente inexplicáveis, nas prisões americanas ou fora delas.

O livro é bem escrito, e o tema é instigante.
Tempos atrás, alguém me disse que estamos em tempos de "carma coletivo".
Também tenho essa sensação: de que vivemos em uma época de isolamento, mas onde - contraditoriamente -, as decisões são tomadas por coletividades, estatísticas ou maiorias.
Fico perdida, vivendo um mundo que não compreendo por inteiro.
O EFEITO LÚCIFER, ao que parece, elucida parte daquilo que eu percebo em meu cotidiano, mas ainda não sei nominar, tampouco mensurar sua força.


Estou chegando na página 300.
Ou seja: já li a introdução, e todo o relato da experiência.
Agora, estou passando pelos parâmetros da pesquisa como foi proposta à época, e de seus resultados.





Mas leio, e fico com a impressão de que não havia qualquer parâmetro de pesquisa, à época dos fatos, suficiente para esclarecer ou abarcar a magnitude da experiência ou de seus resultados.

Leio, torcendo para que nas 500 páginas seguintes, o autor/pesquisador chegue à esta mesma conclusão, e analise esta (e outras) experiência, por parâmetros e hipóteses que realmente expliquem alguma coisa... ou, como diz o subtítulo do livro, os mecanismos sociais sistêmicos que podem induzir uma pessoa "boa", a se tornar "má"....

 ... e então, continuo a ler. Quando terminar, prometo que volto aqui e concluo este post, com o que mais havia no livro e a que conclusões cheguei.

Porque, agora, minha expectativa está alimentada pelas promessas dos capítulos iniciais: de que o livro analisará as questões até fornecer indicativos para como eu/leitora possa também perceber, e quando necessário resistir, à invasão de pensamento e/ou coerção das influências externas.



(...)



Terminei a leitura.
O livro é sensacional!


Para mim, que sempre acreditei que todo ser humano tem tanto a bondade como a maldade em potencial dentro de si, o livro é como um "mapa" que explica as forças que digladiam dentro de cada um de nós.

Penso que qualquer pessoa que leia O EFEITO LÚCIFER, perde a ilusão de que se é dono absoluto do próprio destino, ou de que é capaz de raciocinar e agir consciente em qualquer situação. Zimbardo consegue o perfeito equilíbrio para ponderar quando e onde a influência externa é mais poderosa do que nossa personalidade, e como inconscientemente respondemos às manipulações do meio sócio/econômico em que estamos inseridos.

O conceito que Zimbardo chama de "presente expandido", por si só vale a leitura do livro inteiro.
Não que seja um conceito propriamente novo, consegui relacioná-lo até com as idéias de Mc Luhann sobre a "Aldeia Global".
A diferença, talvez, seja a clareza com que expõe tal conceito a partir da experiência do presídio, e como analisa as alterações na percepção da realidade, a exacerbação das sensações (em detrimento do raciocínio), inclusa a sensação de impunidade.

A promessa de que Zimbardo fornecerá indicativos para que o leitor possa perceber como (ou quando) é necessário resistir à invasão das influências externas, talvez seja a parte mais frustrante da leitura. O capítulo específico do assunto remete às pesquisas da Psicologia Positiva. Sem críticas a esta linha de pesquisa, que na teoria parece promissora e importante. Porém, é fato que os conceitos da Psicologia Positiva caem muito fácil no linguajar e nas frases feitas das autoajudas motivacionais, e na minha humilde opinião, nem mesmo Zimbardo conseguiu evitar o fato.

Neste ponto, mais interessantes são as reflexões do autor sobre quem poderíamos considerar "heróis modernos", e que esbarram na constatação (óbvia?) de que o heroísmo é uma atribuição de terceiros, uma qualidade que nos é dada (ou não) pelos observadores, mas que o indivíduo não tem como atribuir a si mesmo. Deste tema, prossegue considerando sobre a "banalização do bem" e a "banalização do mal", e da influência das mídias na perpetuação do fenômeno.

Definitivamente, O EFEITO LÚCIFER é um livro que muda a percepção do mundo.