Carrego prá cima e prá baixo, um livro que mais parece um tijolo (mas
que é inacreditavelmente mais leve do que muitos dos livros, menores, com que já andei por aí).
Título chamativo:
O EFEITO LÚCIFER, como pessoas boas se tornam más, de PHILIP ZIMBARDO (
na
tradução para o português de Tiago Novaes Lima [será que é meu primo?],
na 1ª edição de 2012 da Editora Record... mas anoto que o original é de
2007).
Capa chamativa: uma gravura de Escher sobre o famoso
estudo da Gestalt figura/fundo, desenhos de anjos em branco e cinza,
perfeitamente ajustados com desenhos de demônios em preto e cinza.
Escher está na moda, é a coqueluche da maior exposição no maior museu da
cidade, o MON.
O livro tem mais de 950 páginas, em tema muito interessante, quase polêmico.
Lembra daquela experiência de laboratório de psicologia, em 1971, o famoso experimento do "
presídio de Stanford"?
POISINTÃO, é sobre isso que trata o livro!
Zimbardo era o professor/pesquisador responsável pelo curso - e experimento - de
férias, na Universidade de Stanford, onde um grupo de estudantes universitários participou como voluntários, sorteou
quem seria "prisioneiro" e quem seria "guarda", para uma experiência que deveria durar duas semanas, mas que só persistiu por metade deste tempo, ante o grau de alterações
de personalidade, passividade e agressividade a que os voluntários chegaram em apenas uma
semana de experimento.
Esse experimento deu aprofundamento à discussão científica sobre
a influência do ambiente, do "sistema político", da autoridade e do
local, para determinar o comportamento e reações individuais. Desde as primeiras notícias, ainda em 1971, foi sempre referência no tema.
Mas o livro foi escrito bem mais tarde, em 2007, depois que o autor já havia maturado não só as análises iniciais feitas subsequente à experiência, mas também novas hipóteses, e um outro olhar a acontecimentos violentos e aparentemente inexplicáveis, nas prisões americanas ou fora delas.
O livro é bem escrito, e o tema é instigante.
Tempos atrás, alguém me disse que estamos em tempos de "carma coletivo".
Também tenho essa sensação: de que vivemos em uma época de isolamento, mas onde - contraditoriamente -, as decisões são tomadas por coletividades, estatísticas ou maiorias.
Fico perdida, vivendo um mundo que não compreendo por inteiro.
O EFEITO LÚCIFER, ao que parece, elucida parte daquilo que eu percebo em meu cotidiano, mas ainda não sei nominar, tampouco mensurar sua força.
Estou
chegando na página 300.
Ou seja: já li a introdução, e todo o relato da
experiência.
Agora, estou passando pelos parâmetros da pesquisa como foi
proposta à época, e de seus resultados.
Mas leio, e fico com a impressão de
que não havia qualquer parâmetro de pesquisa, à época dos fatos, suficiente para
esclarecer ou abarcar a magnitude da experiência ou de seus resultados.
Leio, torcendo para que nas 500 páginas seguintes, o autor/pesquisador
chegue à esta mesma conclusão, e analise esta (e outras) experiência, por
parâmetros e hipóteses que realmente expliquem alguma coisa... ou, como
diz o subtítulo do livro, os mecanismos sociais sistêmicos que podem
induzir uma pessoa "boa", a se tornar "má"....
... e então, continuo a ler. Quando terminar, prometo que volto aqui e concluo este post, com o que mais havia no livro e a que conclusões cheguei.
Porque, agora, minha expectativa está alimentada pelas promessas dos
capítulos iniciais: de que o livro analisará as questões até fornecer indicativos para como eu/leitora possa também perceber, e quando necessário resistir, à invasão
de pensamento e/ou coerção das influências externas.
(...)
Terminei a leitura.
O livro é sensacional!
Para mim, que sempre acreditei que todo ser humano tem tanto a bondade como a maldade em potencial dentro de si, o livro é como um "mapa" que explica as forças que digladiam dentro de cada um de nós.
Penso que qualquer pessoa que leia O EFEITO LÚCIFER, perde a ilusão de que se é dono absoluto do próprio destino, ou de que é capaz de raciocinar e agir consciente em qualquer situação. Zimbardo consegue o perfeito equilíbrio para ponderar quando e onde a influência externa é mais poderosa do que nossa personalidade, e como inconscientemente respondemos às manipulações do meio sócio/econômico em que estamos inseridos.
O conceito que Zimbardo chama de "presente expandido", por si só vale a leitura do livro inteiro.
Não que seja um conceito propriamente novo, consegui relacioná-lo até com as idéias de Mc Luhann sobre a "Aldeia Global".
A diferença, talvez, seja a clareza com que expõe tal conceito a partir da experiência do presídio, e como analisa as alterações na percepção da realidade, a exacerbação das sensações (em detrimento do raciocínio), inclusa a sensação de impunidade.
A promessa de que Zimbardo fornecerá indicativos para que o leitor possa perceber como (ou quando) é necessário resistir à invasão das influências externas, talvez seja a parte mais frustrante da leitura. O capítulo específico do assunto remete às pesquisas da Psicologia Positiva. Sem críticas a esta linha de pesquisa, que na teoria parece promissora e importante. Porém, é fato que os conceitos da Psicologia Positiva caem muito fácil no linguajar e nas frases feitas das autoajudas motivacionais, e na minha humilde opinião, nem mesmo Zimbardo conseguiu evitar o fato.
Neste ponto, mais interessantes são as reflexões do autor sobre quem poderíamos considerar "heróis modernos", e que esbarram na constatação (óbvia?) de que o heroísmo é uma atribuição de terceiros, uma qualidade que nos é dada (ou não) pelos observadores, mas que o indivíduo não tem como atribuir a si mesmo. Deste tema, prossegue considerando sobre a "banalização do bem" e a "banalização do mal", e da influência das mídias na perpetuação do fenômeno.
Definitivamente, O EFEITO LÚCIFER é um livro que muda a percepção do mundo.