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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

AVATAR, Os relatórios Confidenciais do Mundo de Pandora, de M. Wilhelm e D. Mathison

Assisti o filme AVATAR, de James Cameron, e fiquei apaixonada. Não sei se foi a história propriamente dita, a tecnologia dos efeitos especiais, ou o renascimento do desejo antigo de ser colonizadora em outro planeta. Perdi a conta de quantas vezes vi o filme...

E então, uma tarde qualquer, fuçando um sebo na prateleira da ficção científica, encontro AVATAR, OS RELATÓRIOS CONFIDENCIAIS DO MUNDO DE PANDORA [observando que na capa interna, o título da obra consta como Guia de Sobrevivência do Ativista AVATAR, Um Informe Confidencial da História Biológica e Social de PANDORA), autores Maria Wilhelm e Dirk Mathison (leio em português, tradução de Marcelo Barbão, para a edição de 2010 da Editora Leya)

Fartamente ilustrado, o livro é um achado para quem gostou do filme.

Foi escrito como um Guia de Sobrevivência, o narrador é um personagem com o objetivo explícito de "destruir a RDA", e de quebra, salvar Pandora e nosso próprio mundo. Depois da introdução, onde são expostos os objetivos deste personagem/pesquisador e ativista, o livro aborda a Astronomia e Geologia de Pandora, a Fisiologia e Cultura Na'vi, a Fauna, Flora e tecnologia humana em Pandora. Seguem guia das armas e documentos da malfadada RDA, glossário e até um dicionário Na'vi-Português!

Mas prepare-se: depois de olhar o livro, vai querer ver o filme outra vez.
Impressionante a quantidade de detalhes da cenografia de AVATAR, que se tornam mais nítidos e interessantes depois da leitura desse "guia". Precisei assistir o filme outra vez, se não pelo simples prazer, mas para olhar de novo as montanhas "suspensas no ar", agora que tenho a explicação "científica" para o fenômeno inexistente na nossa terra.

O que achei de mais sensacional, foi que o livro inverteu o que era, para mim, uma velha questão: ler o livro, ou assistir o filme? Geralmente leio o livro primeiro... e nem sempre gosto do filme. Ou assisto primeiro o filme... e fico com preguiça de ler o livro.

Mas o "guia" é diferente. Desta vez, não há uma competição entre livro vs filme, para decidir qual conta melhor a mesma história.

Neste caso,livro e filme se complementam enquanto falam de coisas diferentes. Quase são duas histórias (embora o livro, conquanto "guia", não seja propriamente uma "história"). É mais como espiar as coxias, o que mais foi criado pela imaginação dos autores, mas não "coube" no roteiro do filme. Ou seja, é como entrar em Pandora com os próprios pés. E, sobretudo, um testemunho da riqueza do trabalho criativo, multidisciplinar, do roteiro e da imagem combinados.




HOMENS, LOBOS E LOBISOMENS, As Histórias mais Fascinantes (coletânea)

Ah, as festas de fim de ano e suas noites & mais noites de fogos de artifícios. Lembro com saudade do tempo em que os fogos eram apenas na meia noite de réveillon, só uma grande festa. Porém, nestes últimos três ou quatro anos... um pouco mais a cada ano, são dez ou doze dias de fogos espocando a qualquer hora do dia ou da noite. Mas explico: é que tenho dois cachorros, eles tem medo dos fogos. Se acontece uma vez por ano, se assustam, mas passa. Mas quando acontece dias & noites seguidas, ficam cada vez mais apavorados, trêmulos, ofegantes. Uma dificuldade. Conclusão? Noites de insônia, muita televisão com som mais alto do que de costume, e madrugadas com leituras que pouco tem a ver com o propagandeado espírito de Natal ou de Ano Novo...

Mas somando noites insones e cachorros, que leitura melhor do que os contos sobre HOMENS, LOBOS E LOBISOMENS, uma coletânea com As Histórias mais Fascinantes desta fantasia? (leio em português, tradução, seleção e introdução de Edson Bini, publicação de 2005 da Editora Marco Zero ).


O livro se compõe de uma introdução, do organizador, que expõe uma concepção pessoal do mito. O segundo capítulo, com título EXCERTO DO DICIONÁRIO INFERNAL, DE COLLIN DE PLANCY, reproduz uma pesquisa breve sobre episódios com lobisomens registrados entre os séculos XV a XVIII. Uma nota de rodapé informa que Jacques Albin Simon Collin, falecido em 1881, chamou-se Plancy em razão de sua cidade natal, e foi, em sua época, um folclorista (hoje o chamaríamos de sociólogo), mas passou para a história como um demonólogo, posto que parte substancial de seu trabalho foi dedicado às crenças religiosas exacerbadas do mundo feudal.

Seguem-se dez contos, bem interessantes, de autoria de Guy de Maypassant (O lobo), Henry Hector Munro [Saki] (Gabriel-Ernest), Ambrose Bierce (Os olhos da pantera), Frederick Marryat (O lobisomem das montanhas Hartz), Sutherland Menzies (Hugues, o lobisomem), Henry Hector Munro [Saki] (Os intrusos), Edith Nesbit (A loba branca), Walter Scott (Urso Negro), uma novela de Alexandre Dumas (O senhor dos lobos), e um autor brasileiro, Kenneth. G. Seymour (Lobisomens em São Paulo? Hoje?).

Embora todos sejam interessantes, gostei ainda mais de Edith Nesbit (A loba branca), e Alexandre Dumas (O senhor dos lobos). São duas histórias proporcionalmente longas, com desdobramento pouco previsíveis, que atiçam a imaginação.

Todos são contos clássicos, já em domínio público.

Isso torna interessante observar como o mito do lobisomem modifica com o tempo. Nestes contos, pouco se vê a dimensão humanizada com que o mito é tratado na atualidade. Nestas histórias, o lobisomem é uma fera mágica, e age com o instinto do predador.

Hoje cercados pela artificialidade, a natureza parece um luxo.
É curioso ler contos antigos, porque ali a natureza é selvagem e impõe medo, além do respeito. Viva, forte e misteriosa, encerra perigos letais. São histórias de um tempo onde o homem ainda não conseguia olhar para si ciente de que somos o pior predador do planeta. Uma época onde a sobrevivência também incluía valores como a honra e a lealdade.




domingo, 1 de dezembro de 2013

AS LUZES DE SETEMBRO, de Carlos Ruiz Zafón

Não importa se os primeiros livros de Zafón, agora reeditados, eram considerados como literatura infanto juvenil. As histórias são tão lindas, e a narrativa tão envolvente, que acabo comprando e lendo como quem se dá um presente.

Desde que li A SOMBRA DO VENTO e comecei a acompanhar a republicação de suas histórias que o encantamento é o mesmo. A última leitura, foi AS LUZES DE SETEMBRO (leio em português, na tradução de Eliana Aguiar, edição de 2013 da Editora Summa de Letras).

Desta vez, Zafón aborda o universo dos autômatos, aqueles bonecos famosos no século XVII ou XVIII, que se movimentam por mecanismos tão precisos quanto os de um relógio suíço. E convenhamos: quem já não olhou um destes bonecos, e além da ilusão de que seja dotado de vida, também não acrescentou um mini roteiro de filme de terror, com o boneco ganhando vida e saindo para assustar todo mundo?

AS LUZES DE SETEMBRO são uma visão poética do que, de outra forma, é um filme de terror. Uma família assombrada por uma promessa que mais parece uma maldição, e um espírito maléfico que toma vida através dos autômatos que Lazarus constrói com tanta maestria. Um passado de tragédias que se revela, aos poucos, em um roteiro de aventura.

A sensação de poesia vem da inocência das crianças que, contando a história enquanto lutam para sobreviver apesar do mal que paira como uma sombra na velha mansão, olham as tragédias na vida dos adultos que as cercam. E também neste romance adentramos a ambientes antigos e quase medievais, toda a trama envolta em referências da bela cultura antiga, obras de arte, arquiteturas que fazem sonhar, construções cercadas do silêncio dinâmico da natureza.

Uma leitura perfeita para respirar um pouco e se distanciar do caos da vida cotidiana.



O SOL VERMELHO de Marion Zimmer Bradley

Que alegria, quando encontro algum livro da Marion Zimmer Bradley que ainda não li. Nestas horas que compreendo como minha cidade é mesmo uma aldeia (apesar de ser uma capital, razoavelmente grande), e quantos livros demoraram a chegar sob meus olhos.

Encontrei O SOL VERMELHO campeando sebos, é claro. Acho que era o fim de estoque de alguma livraria, pois o volume ainda não tinha sido manuseado, ninguém o leu. Sei, porque existia falha na edição, páginas que não foram bem cortadas e, em dois lugares, ainda estavam unidas na dobra. Fui eu a separar as pontas ainda uma mesma folha, por isso sei que fui, também, a primeira pessoa a ler o livro.

O SOL VERMELHO é mais um volume da saga de DARKOVER, e conta a história de Jeff Kevin e Auster, amigos separados ainda na infância, um deles darkorviano da linhagem do Comyn, outro um mestiço darkoviano com humano, ambos dotados de poderes paranormais.

O romance aborda preconceitos. Jeff, criado como humano, nunca conseguiu se sentir à vontade em nenhum dos muitos mundos pelo qual passou, inclusive na Terra, onde viveu com seus avós. A primeira parte do livro lembra um pouco a história do Patinho Feio, alguém que não tem uma razão objetiva para não se sentir feliz nos muitos lugares por onde passa, entretanto... sente-se sempre fora de seu lugar, longe da sua gente, embora não tenha ideia de onde seria esse lugar e onde encontrar esse povo, que não conhece mas sente falta. Darkover o fascina, sem que saiba explicar o porquê. Consegue, enfim, um trabalho no planeta vermelho, mas a sensação de estar "em casa" é tão forte, que abandona o trabalho e foge para o planeta, aventurando-se a partir de sua intuição.

Na sequência dos livros, O SOL VERMELHO se passa após a TORRE PROIBIDA, quando a herança genética já foi utilizada a tal ponto, os casamentos familiares tão repetidos, que quase não há mais filhos das grandes casas com poderes telepáticos. Com isso, as Torres quase são desativadas, poucas as crianças habilitadas a operar, e se questiona a possibilidade de substituir a energia ancestral, pela tecnologia e confortos trazidos pelos humanos através do Império.

Mas para que Jeff possa ser uma esperança de renovação nas tradições antigas, é necessário que seus companheiros sejam capazes de superar o preconceito, aceitando trabalhar com um terráqueo sem origem nobre, ao mesmo tempo em que se questiona a necessidade de sacrifício das sacerdotisas superiores e da limitação imposta de que se mantenham em contínuo estado virginal. As tradições precisam ser revistas, sob pena de perecerem como lendas de um passado remoto.

Foi uma leitura interessante, porque embora o original seja de 1979 (leio em português, na tradução de Luciana Mello, edição de 1996 da Imago Editora Ltda), os assuntos são muito atuais: o preconceito que se acirra quando há efetiva necessidade de mudança, e a única opção apresentada significa abrir mão de uma tradição valiosa e significativa. Como conciliar?

Marion Zimmer Bradley parece profética nesse conto de fadas. E com um final surpreendente, bastante positivo. GOSTEI!, delícia, tomara que ainda encontre outros livros não-lidos dela. Por via das dúvidas, sempre dou uma conferida nas prateleiras de qualquer sebo em que entre.



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

FILHA DA FLORESTA, trilogia de Juliet Marillier

A escritora Julliet Marilier tem sido aclamada como a sucessora de MARION ZIMMER BRADLEY. Nascida em Dunedin, Nova Zelândia, foi influenciada pela forte tradição escocesa do local.

Encontrei FILHA DA FLORESTA como um lançamento na minha livraria favorita. Com um adendo feliz, considerando os demais lançamentos que comprei esse ano: é mais uma "trilogia", mas desta vez TINHA o segundo volume, FILHO DAS SOMBRAS.

Só descobri sua fama como sucessora da (minha amada autora, lugar especial dentre as preferidas) Marion Zimmer Bradley, ao ler mais atentamente as orelhas do segundo volume da trilogia, ontem à noite. Porque o primeiro volume, quase "devorei" em uma madrugada única, só não terminei porque era dia de semana e, de alguma forma, precisava de algumas horas de sono para conseguir trabalhar no dia seguinte!

Para quem gosta de contos de fadas na forma de romances... para quem é leitor ávido de Marion Zimmer Bradley... para quem ama lendas celtas/ irlandesas/ escocesas, com seus seres mágicos das florestas e tradições ancestrais...
A capa já chama a atenção: uma jovem carregando um galho de árvore, saindo de uma floresta de mato alto, semicoberta por uma longa capa e capuz. FILHA DA FLORESTA, como poderia deixar de ler? (Leio em português, tradução de Yma Vick, edição de 2012 da Butterfly Editora). Lindo! Uma minúscula síntese da história, na capa de trás, tinha as referências de que precisava: seres das florestas, encantamentos, aventura.

Mas pouco prestei atenção nas informações da orelha. Detesto quando no lugar da síntese do livro, resolvem transcrever um trecho qualquer do romance. Para quê transcrever pedaços do livro que já está na minha mão ? Alguém tem dúvida que, depois de ver a síntese da história, darei pelo menos uma espiada aleatória e rápida no texto, para conferir se gosto da linguagem que a autora usa? E... TRANSCRIÇÃO NA ORELHA? Façam-me o favor... se consegui ler a orelha, então este livro não está vedado em plástico e, portanto, posso folhear à vontade. Pulei direto para as referências sobre a autora, de sua forma de acesso às tradições escocesas... e para mim, bastou.

FILHA DA FLORESTA (vol 1) e FILHO DAS SOMBRAS (vol 2) são textos para voar na fantasia. Um terço está escrito, os outros dois terços são da própria imaginação. Ela usa dos contos de fadas como todos nós deveríamos ser capazes de fazer: uma história que é um aprendizado que é uma história. É uma contadora excepcional, consegue colocar o leitor dentro do texto, como se estivéssemos lá, junto com os personagens, acompanhando a aventura.
Mas sua personagem, Sorcha - a sétima filha do sétimo filho -, também é uma contadora. Então, há histórias dentro da história, lendas que são contadas pela voz da própria personagem.

No prefácio do romance, a autora explica que a trilogia é mesmo um conto de fadas versado para adultos. Baseia-se no conto OS SEIS CISNES, também conhecido como OS CISNES SELVAGENS, contados primeiro pelos Irmãos Grimm. A linha mestra da história é uma madrasta, bruxa e malvada, que assume o feudo onde moravam seis irmãos e uma irmã, lançando um encantamento que transforma os rapazes em cisnes. Com a proteção dos seres das florestas, a única irmã remanescente terá uma longa e difícil tarefa a cumprir, para quebrar o encantamento. Uma tarefa que levará três longos anos para ser cumprida, às escondidas, e que a levará na direção da casa de seus inimigos e aos braços de um grande e sincero amor.

Mas acrescento, quanto para mim foi importante, essa leitura, neste momento.
(Quem sabe, também estou protegida pelos Seres da Floresta?)

Para a maioria dos leitores, talvez o romance chame a atenção pelas aventuras da heroína, ou pelo grande amor que se desenrola aos poucos, em meio à adversidade. Ou, quem sabe, pelo ritmo envolvente da narrativa, que realmente prende a atenção.

Mas para mim, não foi assim.

Reclamei tanto, nas últimas semanas, tão cansada e me sentindo afogada em rotina. Está sendo um ano exaustivo, daqueles em que as mesmas coisas precisam ser feitas continuamente, e visto de forma isolada, nenhuma delas parece particularmente importante ou significativa.

Sempre achei a rotina importante, mas não quando sinto que estou afogando dentro dela. Já havia perdido, depois de meses e meses vivendo da mesma forma, a capacidade de me distanciar dos dias sequentes e observar o resultado da somatória das minhas ações. Sentia que estava no limite do cansaço, quando encontrei esse livro.

Ocorre que, em A FILHA DA FLORESTA, mais da metade do livro são as desventuras da personagem, nos três loooooongoooossssss anos que passa tentando cumprir sua tarefa e libertar os irmãos do mau encanto.

Assim como eu, também a personagem imaginou que conseguiria terminar seu fado em pouco tempo, mas a tarefa era mais longa e difícil do que parecia a princípio. Também como eu, o silêncio e a rotina cansativa eram a tônica da tarefa a cumprir. Da mesma forma como acontecia comigo, o longo tempo distorcia a visão do objetivo final, e nenhuma surpresa feliz amenizava a dificuldade que se impunha. Como acontecia comigo, todas as situações inesperadas que surgiam, eram novos problemas e mais dificuldades a resolver. E também para ela não havia nenhuma palavra de motivação além daquelas que pudesse encontrar sozinha, dentro dela mesma.

Então, lá estava eu, dentro do conto de fadas, no meio do percurso sem saber se teria forças para continuar. Uma história que caía como um bálsamo de compreensão para a minha fraqueza. Restaurei minhas forças, ou, ao menos, parte dela. Partilhei de seu silêncio, do esforço para repetir em tédio o esforço necessário, em busca de um resultado que parece desaparecer em um futuro incerto enquanto o tempo parece escoar entre os dedos.

Foi por isso que mal comecei a ler o seguindo volume da trilogia, mas senti vontade de escrever sobre o primeiro, e assim agradecer a palavra sábia que me chega na forma de um conto.

(Quando terminar de ler o segundo volume, FILHO DAS SOMBRAS, volto aqui para comentar!)







Fim de feriado e fim do livro.

A trilogia é uma saga de família.
FILHA DA FLORESTA conta a história de Sorcha, a caçula de sete irmãos.
No segundo volume, segue a história de Liadan, filha de Sorcha.


Não sei se FILHO DAS SOMBRAS segue algum conto determinado, como acontece no primeiro volume. Este tem mais características da Jornada de Herói, cenas épicas e muita ação, daquelas em que os bandidos são "mocinhos", há poderosos que são vilões, e no meio ficam todos os outros que querem vive em paz. E a parte romântica também é muito bonita, lembra um pouco as controvérsias de Romeu & Julieta (Shakespeare), o amor proibido, forte e pleno de desejo, que nesta história é capaz de vencer todas as dificuldades.

Algumas cenas são realmente emocionantes. Sua fantasia sobre endurecer o coração para sobreviver, e o resgate da emoção e da esperança me rendeu tantas lágrimas, que precisei parar porque não conseguia mais ler. O livro enfoca a ideia de pensamento positivo mesclada com magia, invocações capazes de encher a mente com lembranças boas e positivas como um dom e encantamento dos mais fortes. Muito bom!


Enquanto pesquiso mais obras da autora traduzidas para o português, fica aqui o endereço eletrônico de sua página oficial - Juliet Marillier, e de uma fan page no facebook: fan page no facebook de Joliet.


Mas, embora seja uma história completa, é mesmo um livro de transição. A história de fundo caminha para o retorno da bruxa má do primeiro volume, através da força de um filho mago, em uma trama onde guardar segredos só fez mal. Fiquei morrendo de curiosidade para ler o terceiro volume, FILHA DA PROFECIA.

(...)


Encontrar FILHA DA PROFECIA não foi fácil.
Procurei nas livrarias, da minha preferida à mais completa da cidade, passando pelos sebos... nada... a informação recebida é de que a edição está esgotada, na editora.

Já estava quase desistindo, triste, porque a saga é muito bonita, quando, TCHAN TCHAN TCHANM!, descubro o site LÊ LIVROS, onde e-books são distribuídos, e gratuitamente!

Melhor ainda: lá estava a TRILOGIA COMPLETA!

Estou quase terminando a leitura do terceiro volume, tão bom e tão envolvente quanto achei que seria.
A saga continua, terceira geração. Todos os personagens dos livros anteriores, de volta à trama, uma geração mais velhos. Novas responsabilidades, novos desafios, muita magia. Lindo.

A leitura ainda veio, para mim, com um adicional bem vindo: é a primeira vez que consigo ler e-book (acho esta mídia insípida, não substitui o prazer de ler um livro "físico". Mas é uma opção viável, seja pelo preço, ou neste caso, porque não encontro a edição impressa).

Por isso, voltei aqui, para deixar o endereço eletrônico do site, divulgando a quem interessar.
Boa leitura!
(Clique sobre o título do volume, abaixo):

A FILHA DA FLORESTA
O FILHO DAS SOMBRAS
A FILHA DA PROFECIA




domingo, 10 de novembro de 2013

O CAIR DA NOITE, de Isaac Asimov e Robert Silverberg

Precisava sair um pouco da realidade, que este ano estou afogada em rotina. (Xen-ti, esse ano de 2013 irá embora sem deixar saudade...)

Então, fui ao sebo atrás da seção de ficção científica. Levei um susto: a menor das seções, o menor número de livros, e só tinha dois exemplares do Isaak Asimov. Fiquei na dúvida: nesta última década, os cientistas confirmaram a existência de planetas, e descobriram centenas, talvez milhares deles. As ciências ligadas à astronomia (e, claro, os ufólogos e os místicos) questionam e buscam por um planeta capaz de sustentar a vida humana. As descobertas geraram uma corrida às lojas atrás dos velhos livros de ficção científica, ou nós, leitores, ainda não vinculamos a imaginação e a realidade?

Toc, toc, ninguém por aí imaginando como será viver em outro planeta?


Pois bem... EU ESTOU.
Mesmo sem fazer inscrição para viver em Marte (faltou dinheiro e faltou coragem, rs), reacendeu a vontade de ler ficção. Trouxe para casa O CAIR DA NOITE, escrito por Asimov e Robert Silverberg (leio em português, tradução de Ronaldo Sérgio de Biasi, 2ª edição da Editora Record, 1990).

A história era tudo o que eu queria ler neste momento.
Ainda que exista um prefácio, onde os autores deixam claro que não pretendiam uma correlação entre o mundo alienígena e o mundo real... bem, os personagens e a história são tão convincentes e humanos, que é impossível não correlacionar.

Exceto, claro, porque esse povo vive num planeta com seis sóis de diferentes tamanhos, cuja trajetória intercalada fornece luz ininterruptamente. Neste lugar, a escuridão é o fato anormal, artificial, só encontrado nas cavernas isoladas onde ninguém nunca entra. A escuridão traz o pavor extremo, e pode desencadear a loucura, temporária ou permanente, para algumas pessoas.

Porém, uma catástrofe se avizinha. Profecias antigas avisam que a cada 2049 anos, a escuridão se abate no planeta, no céu se aproxima pontilhado de pequenas luzes brancas, e o fogo ataca as cidades. A profecia é anunciada por um grupo religioso radical, como o apocalipse do mundo conhecido, o castigo dos deuses para os pecados dos homens.

Ciência e religião se confrontam, quando a noite, surpreendentemente, surge nos céus, total e cataclísmica.






PS: sobre os projetos contemporâneos de colonização do planeta MARTE, vide, entre outros: colonização em marte Wikipédia, e brasileiros em marte., ambos acessados em 14/nov. 2013.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A FILOSOFIA DA ADÚLTERA, de Luiz Felipe Pondé

E dizer que não gostava de "filosofia"... e hoje, meus autores brasileiros preferidos, que leio com mais prazer, são dois filósofos!

Ontem comprei A FILOSOFIA DA ADÚLTERA, Ensaios Selvagens de Luiz Felipe Pondé (editora Leya, 2013), então li um pouco-bem-pouco no escritório, outro tanto no ônibus, entrei mais um tantinho pela madrugada e... bem... kbô!


A FILOSOFIA DA ADÚLTERA é a filosofia de Pondé, pelos olhos de Nelson Rodrigues. Ou será o inverso?

Textos ao melhor estilo "a vida como ela é". Curtos, quase crônicas, com gosto de bate papo, lareira e vinho, na companhia de alguém de raro senso de humor. 

Comecei a ler, não parei.






O livro já chama a atenção desde a capa, filtros rosa e vermelho, sobre a imagem de uma mulher "anos 50" retocando o batom, que bem atiça o imaginário "bonitinha-mas-ordinária" que a gente associa mesmo aos textos de Nelson Rodrigues. Trajeto de volta prá casa, um trecho eu li no ônibus, em pé, depois de achar um canto seguro prá encostar a mochila e as costas. E via de canto de olho, quem mais estava à volta, espiando por cima dos meus ombros tentando entender que livro era essa capa de sutil sugestão erótica. E quando não ria de algum comentário lido, aquelas tiradas rápidas tão características do autor, então ria sozinha de quem tentava descobrir sem perguntar, com vontade de ser desmancha prazeres prá avisar: é livro de "filosofia", sacou?

Agora, meu volume está cheio dos tracinhos de destaque, que tenho o costume de marcar prá reler mais tarde, achando rápido o que mais gostei. É uma seleção variada, as frases que pinçaram aquela corda nervosa, como um eco de caverna indicando que ainda há mais oculto na névoa e no desconhecido. "... Escrevo para não me sentir só." [p 24], que lembra outra frase que gosto muito, de uma aula das Oficinas de Literatura da FCC de tempos atrás: "Como Sherazade, contamos histórias para não morrer." E tem mais, muito mais. D' "... o homem como um ser sempre à beira da morte, sonhando com o amor..." [pg 23], e da liberdade e do individualismo, como um estado de alma poderoso, solitário e sofrido.

Gostoso mesmo, foi ler Pondé falando (e/ou explicando) sobre o tédio desta sociedade de felicidade "tecnológica, científica" e programada. Sabe... ver pessoas reivindicando direitos de forma histérica traz junto uma vaga sensação de que, estas, eram pessoas entediadas. Mas sem palavras para explicar, quem consegue comunicar?
Em A FILOSOFIA DA ADÚLTERA, o autor refere a esse tédio peculiar, e melhor: tem palavras, vocabulário, expressões, Nelson Rodrigues, histórias e personagens que tornam a percepção do fato clara como água de nascente. Encontrei as palavras que me faltavam!

Ah, a vida fica tão mais viva, vista pelo olhar de Nelson Rodrigues até Luiz F. Pondé... e então, de Pondé para... bem... de volta à vida real, olhar & olhar de novo, afiando um olhar selvagem. Porque não?



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

AMBER HOUSE, de Kelly Moore, Tucker Reed e Larkin Reed

Ah, as velhas casas cheias de segredos!
(Porque foi que não nasci herdeira de uma grande e velha casa cheia de passagens secretas e pequenos tesouros do passado a serem descobertos? Gosto tanto disso!)

Diz a anotação de orelha de AMBER HOUSE - Onde o passado e o futuro se encontram, que a história aguardou cerca de trinta anos, para terminar de ser escrita. É que KELLY MOORE imaginou a história quando ainda era estudante de direito, e fez anotações em meados da década de 1980. Depois teve duas filhas, Tucker e Larkin, que descobriram o manuscrito anos atrás, e decidiram reescrevê-lo, juntas.

Assim, a mistura de passado e futuro não está só na história ficcional, mas tem um pouquinho dela na história das escritoras também.
Deve ser sensacional... já imaginou reescrever a história inventada por sua mãe, quando ela mesma tinha só a sua idade?
(Leio em português, tradução de Martha Argel, editora Jangada edição 2013).


A história é uma delícia.
O livro já entrou para a minha lista pessoal das casas mais adoráveis, fascinantes e inesquecíveis da literatura de ficção.
A trama tem tudo o que eu gosto, e só para começar, os ecos do passado que mais parecem fantasmas que voltam à vida.

Se pudesse escolher um poder paranormal, seria o mesmo das mulheres de AMBER HOUSE: o de tocar um objeto e conseguir visualizar pessoas, fatos e emoções do passado de quem, antes de mim, também tocou no mesmo lugar. Já imaginou?
É o que acontece com Sarah, no momento em que entra na velha casa de família, herança da avó que acaba de falecer. Aos poucos, cada objeto que toca lhe traz uma visão/lembrança do passado, de suas antepassadas que também viveram ali. E não é pouco: são trezentos anos de história, em uma casa que cada geração ampliou um pouquinho, acrescentando sua cota de espaço e tragédia. Presente e passado vão se misturando, e mais um tantinho de romance, e de desencontros em família.

Mas a maioria dos objetos significativos estão ocultos, escondidos, pois a casa é cheia de passagens secretas. Alçapões desativados onde antes se escondeu contrabando e escravos fugidos. Corredores e sótãos que guardam baús com objetos de memórias dolorosas que não se pode, ou não se quer, sejam jogadas fora.

A história continua... e a proposta do romance se torna ainda mais ousada: viagem no tempo e mundos alternativos. O que aconteceria se um fato, uma tragédia, um destino pudesse ser evitado?


SÓ QUE....

Pois é, quando cheguei no fim do livro... tchantchantchan,,, mais uma trilogia!
(Desta vez, ainda bem, são livros independentes, a história está inteira e não fiquei ansiosa para saber o que acontece "depois"... embora esteja curiosa em saber o que será o segundo volume!)

Pelo jeito, ano que vem será uma delícia passear na livraria. Pelas minhas contas, tenho prá ler o lançamento do segundo volume dos lobisomens da Anne Rice, a sequência da 5ª Onda, e mais o segundo volume do Amber House. Nada mal!








quarta-feira, 18 de setembro de 2013

CARAVAGGIO, de Roberto Longhi

Lindo!

Este livro, ganhei de presente de aniversário da minha irmã (obrigada, obrigada, obrigada!)
Bom... é uma edição Cosac Naif (leio em português, tradução de Denise Bottmann, prefácio de Lorenzo Mammi). E uma coisa essa editora tem como diferencial: é livro prá ler, e livro prá ver!

As ilustrações são simplesmente ma-ra-vi-lho-sas, um espetáculo à parte.
Parei um pouquinho em todas: adoro os quadros de Caravaggio. Adoro a palheta de cores, a dramaticidade, a técnica, as expressões, o foco. Tudo.

E o livro traz um texto de referência, histórico.
(Embora seja verdade que, quando vi pela primeira vez, ainda na propaganda, o nome "Roberto Longhi" não era desconhecido, mas com essa memória que mais parece queijo suíço, e daqueles que só vale comprar a quilo porque tem mais buraco do que queijo, não associei o nome a quem quer que fosse, além de "já ter ouvido falar", algum dia, nem lembrava por quem!)

Quando o livro chegou às minhas mãos, e vi que espetáculo que era, até beijei o volume.
É o texto mais importante!
Então, lembrei: Longhi foi o "descobridor tardio" de Caravaggio, quem deu ao pintor essa sensação de descoberta do século XX.
E a leitura é ótima, Longhi escreve bem, comenta várias obras, misturando um pouco de estética com um pouco de biografia.

E por falar em biografia... Caravaggio é como Beethoven ou Michelangelo, e tantos outros gênios intempestivos e impetuosos, que provavelmente infernizaram a vida dos amigos e familiares com quem conviveram. Mas que, para mim - que deles só conheço textos biográficos -, parecem ter tido vidas intensas, completas, corajosas.
Alguém já disse que todo mundo ama heróis mortos, porque só então podemos amá-los  sem nos colocar em risco...
Talvez seja verdade.
(Mas a vida de Caravaggio, é uma história e tanto!)

Importante, também, foi rever obras de que tanto gosto.
Lá estava, em reprodução primorosa, As Sete obras da Misericórdia (pg 126, óleo sobre tela de 1606-07), a grande bunda do cavalo de Conversão de São Paulo (pg 94, óleo sobre tela de 1601), e o maravilhoso Judite e Holofernes (pg 59, óleo sobre tela de 1598-1600).
Não canso de olhar.
Delícia!




O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM IDIOTA, de Olavo de Carvalho

Um oásis no deserto! Foi o que pensei, quando finalmente vi o livro na estante de lançamentos da minha livraria preferida, depois de meses acompanhando a divulgação pela internet (pois é... AINDA sou reticente em comprar por internet. O jeito foi esperar).

Já faz semana que estou lendo, com lápis na mão e dois marcadores de páginas (porque tem o texto, tem as notas de rodapé, mas tem também as notas do organizador, quase tão interessantes quanto o texto em si, mas que ficam no fim de cada capítulo! Então, são dois marcadores, um pro texto, outro prás notas). Conclusão, passou a semana e só cheguei na metade do livro (leio a segunda edição da Editora Record, 2013).

Estou tão animada, que não resisto a escrever sobre o livro, mesmo sem ter terminado.
Mais ou menos como aconteceu com o Efeito Lúcifer: uma certa tristeza, de não ter mais ninguém lendo comigo, e não achar com quem trocar impressões.
Ainda bem que tem o blog.
Escrevo aqui.

De cara, fiquei mesmo impressionada, foi com o trabalho do Felipe Moura Brasil, o organizador do livro.
Quando vi a propaganda, não imaginava algo tão completo!

O MÍNIMO, acreditem, é um livro de 615 páginas de pequenos artigos, publicados - e agora reunidos - por quase duas décadas (1997 a 2013). Porém, ainda mais impressionante, foi a organização dos textos, a seleção dos temas, a precisão das notas do organizador, tão interessantes que até merecem seu próprio marcador de páginas (qualquer leitor compulsivo como eu, entendeu, não é?).
Um trabalho f..., nem imagino a loucura que deve ter sido organizar um volume de textos deste tamanho.
Mas o resultado, ficou maravilhoso. Estou encantada.


Livros como O MÍNIMO QUE VOCÊ PRECISA SABER PARA NÃO SER UM IDIOTA devolvem meu senso de normalidade.
Finalmente, começo a reencontrar os pensadores, os filósofos, os intelectuais e os artistas, aquela gente crítica mas com conteúdo prá falar, que sempre existiram no mundo e na minha realidade, e que, de repente, pareciam ter sido abduzidos por alguma nave espacial que ninguém viu passar. Encontrá-los, não foi fácil. Então, como não agradecer um livro que afirma, peremptoriamente, aquilo que também já percebi, que aos pensadores da atualidade está sendo negado espaço público, e que poucos sobrevivem, sob pressão, mais das vezes publicando suas ideias em blogs independentes? 

Mas me apaixonei pelo livro logo nos dois primeiros capítulos.

No primeiro capítulo foi a empatia, ao ler a interpretação do autor sobre como a propalada rebeldia jovem é, mais que qualquer outra coisa, a luta para conseguir aceitação de um grupo social que lhe parece tão importante quanto hostil (fls. 29/31, O imbecil juvenil, artigo no Jornal da Tarde de 1998).

Adiante, no terceiro capítulo, a resposta à pergunta mais pessoal e íntima, resumida em uma palavra: VOCAÇÃO. 
Olavo afirma: "Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante, já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: 'Você faz isso por dinheiro ou por prazer?" (fls. 47, Vocações e equívocos, de Bravo! em fevereiro de 2000).
Quando foi que essa palavra desapareceu do "meu" vocabulário?
Justo a palavra que definia o que eu sinto? Aquilo que faz com que me sinta "viva"?










Delícia, ler O MÍNIMO.
Maravilha, descobrir que não estou "doida", tampouco a única a constatar a degradação, o decaimento e a falta de conteúdo do que se apresenta como educação e cultura no país.
Reconfortante, descobrir a versão suprimida da história, além de nomes e títulos de autores nunca estudados e pouco divulgados;

Melhor ainda, é conseguir entender da sociedade, o mínimo necessário para que eu deixe de me sentir uma idiota. Entender porque determinados modismos são apresentados como se fossem verdades absolutas. Entender porque coisas graves são tratadas como fossem triviais, e coisas triviais são tratadas como fossem graves.

Bom... estou na metade do livro.
Volto a este post, quando terminar!



TERMINEI... quer dizer, "quase".
Ficou um único capítulo para trás, que não sei quando vou terminar de ler.


De fato, a leitura não é rápida.
Além de marcar o que achei interessante, ainda senti necessidade de correr atrás de bibliografia indicada. Ou seja, comprei outros dois livros só na indicação, e não comprei um terceiro porque ainda não encontrei a edição.
E não é só: como os artigos cobrem um longo período de tempo, parte da graça da leitura é verificar as datas (e notas), e o contexto em que tal opinião foi dita, e como se modifica com o passar dos anos. 

Confesso: minha maior diversão foi acompanhar a evolução das ideias de Olavo em relação aos EUA.
Isso porque os artigos começam lá em fins dos anos 90, com o autor ainda residindo no Brasil (consta informação que mudou-se para os EUA em 2005), e quando no Brasil já tinha "Lula", mas os EUA ainda não tinha "Obama". Pinçado em trechos dos vários artigos, foi interessante observar a mudança do olhar, tão mais crítico à medida que se tornava tão mais parecido com aqui.

O livro cumpre o que promete.
Inúmeras vezes me senti "a idiota" a quem o livro é dedicado. Agarrava o texto e lia ainda mais, deliciada em entender (ou, de alguma forma, comprovar) como me fizeram de idiota sem a minha permissão.
Porque sou aquela pessoa que não é de direita, tampouco de esquerda, mas estou sentindo na pela a mudança de valores sociais e o descaso com tudo o que sempre foi considerado belo e importante. Sou aquela pessoa que se sente com a inteligência subestimada, subtraída, diante de absurdos apresentados como "politicamente corretos", sem saber de onde saiu essa horda de pensamento pré fabricado, nem porque tanta gente hoje parece raciocinar de um jeito tão programado quanto um robô.

Manipulação de massa.
Formação artificial da opinião pública.

Deixei o benefício da dúvida, para as (poucas) coisas que o autor refere, mas eu ainda não constatei "ao vivo" na minha (limitadésima) vidinha cotidiana.
O restante - a maior parte de um livro de 600 páginas -, foram feitos de puro alívio e muito esclarecimento. Quase tudo, já tinha constatado - com surpresa -, até no meu próprio simplório cotidiano.

E agora... continuo não sendo nem "de direita", tampouco "de esquerda", mas com sorte, uma releitura oportuna e pausada, muita reflexão e leitura complementar, no caminho de me tornar um pouco menos idiota. Encontrando, devagar, onde estão e de onde falam os rebeldes desse (detestável) "Admirável Mundo Novo".






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A 5ª ONDA, de Rick Yancey

UAU, isso sim é um livro de aventura!

Quem gosta de ufologia, mesmo tão leigo quanto eu, sabe que não faltam teses sobre a vida alienígena: são mais evoluídos do quê nós? São figuras grotescas, enormes insetos beligerantes? Ou são deuses astronautas, quiçá nossos pais ancestrais?
E nem mesmo aqueles que nunca se interessaram pelo assunto, estão isentos de formar opinião: depois de muita controvérsia, preconceito e ridicularização, os (poucos, e) polêmicos astrônomos defensores da existência de vida alienígena finalmente conseguiram comprovar que a Terra não é o único planeta no universo. E, em menos de década, foi confirmada a existência de um número incalculável de planetas, muitos deles potencialmente capazes de manter vida.

Mas a verdade é que não temos confirmação de vida alienígena inteligente... AINDA.
E no oceano de hipóteses plausíveis, talvez a teoria mais aterradora seja a que sugere que a extinção dos dinossauros tenha sido orquestrada por alienígenas, a fim de criar um mundo ideal para a sobrevivência e desenvolvimento de uma nova raça: os humanos. E no mesmo raciocínio, a de que alienígenas poderiam voltar para repetir a façanha, desta vez extinguindo os humanos para criar o mundo ideal de alguma nova espécie.

Esse é o tema de A 5ª ONDA, uma ficção científica sobre a temível invasão alienígena. (Leio em português, na tradução de E. Siegert & Cia Ltda [Edite Siegert Sciulli], edição de 2013 da Editora Fundamento Educacional Ltda).

Mas o que prendeu a atenção, foi mesmo a narrativa.

Quando a história começa, a "quarta onda" já é uma realidade, a tragédia maior já aconteceu, e só saberemos como cada precedente onda de extinção em massa aconteceu, na medida em que os personagens buscam das suas razões para sobreviver.
Isolamento e insegurança são a realidade dos poucos que ainda vivem. Tudo é muito rápido e intenso na narrativa do autor, não houve tempo para assimilar a mudança e a tragédia. Também nós, leitores, ficamos com a sensação de imergir em um pesadelo, sem previsão do quê pode acontecer na próxima página.

O autor é muito feliz ao dispensar longas descrições das calamidades, do mundo destruído e abandonado, da mesma forma como dedica pouco tempo às memórias de perda e sofrimento. Verdade que todos esses temas estão lá, inseridos no texto, mas de forma sintética, rápida, intensa.
É perfeito, porque qual de seus leitores, contemporâneos, não tem todas e muitas outras destas imagens firmes na imaginação, resquício das centenas de livros e filmes de ficção científica da produção de um século sobre o mesmo tema?
A 5ª ONDA é instigante, porque usa todo o imaginário que o leitor já possui, e constrói a história a partir dele.

Porém... diz a orelha do livro, que se trata de uma trilogia.
E... o (primeiro) livro termina no meio da história!

A primeira aventura termina com um questionamento instigante: duas espécies inteligentes podem coexistir no mesmo planeta?

Mas preciso dos demais volumes para saber como a história termina.
Confesso que fiquei um pouquinho frustrada...
Prá mim, um texto longo que, para ser editado, foi dividido em três livros, não é uma "trilogia". (No meu entender, "trilogia" são três histórias sequenciais, cada qual completa em si mesma).  E não resisto ao desabafo de leitora chateada que, depois de me apaixonar pela história, a vejo parar no meio sem ter ideia de quanto tempo terei que esperar até que chegue na loja os próximos volumes.
Pois desta vez, é diferente de A HORA DAS BRUXAS (Anne Rice), ou O BAILE DAS LOBAS, de Mireille Calmel, que todos os volumes já estavam publicados e disponíveis quando li o primeiro, foi só correr na livraria e comprar o seguinte. Agora, não tem jeito. Terei que esperar o lançamento dos outros volumes... que chato!
O pior é saber que vou esperar, até com certa ansiedade.
A história é ótima, a narrativa é veloz, a leitura é de tirar o fôlego e atiçar a imaginação!







sábado, 24 de agosto de 2013

A DÁDIVA DO LOBO, de Anne Rice

Consegui!
Eu li!

Tudo começou quando descobri que Anne Rice (sim, acreditam? Ela mesma!) tem uma página no facebook, que passei a seguir. Verdade que não entendo o que ela posta, porque escreve em inglês, e da língua sei pouco mais do quê pronunciar algumas marcas, uma ou outra expressão aprendida nas aulas de inglês do ensino médio e esquecidas nos anos que se seguiram e, quem sabe, contar até dez. Mas, se fico curiosa, uso um tradutor e descubro, como todo mundo faz.

Foi assim que entendi a notícia de que Anne Rice estava lançando seu segundo volume da saga dos lobisomens... segundo volume... SE-GUN-DO????
COMO ASSIM?
Eu nem vi o primeiro!

Aproveitei a hora do almoço, para ir até minha livraria predileta. Consultaram seus arquivos, nada.
Passam alguns dias, e lá estava, no face, mais um comentário e fotos do lançamento do SEGUNDO volume. Fiquei inconformada. Fucei na internet. Não é possível, aqui não é o fim do mundo, nossas editoras tem excelentes tradutores, e Anne Rice tem aqui um público fiel (inclusive EU!), oras!

E enfim, achei. Traduzido, só o primeiro volume, com título A DÁDIVA DO LOBO (leio em português, na tradução de Alexandre D'Elisa, edição de 2012 da Rocco). E tinha na loja virtual da minha livraria predileta... voltei lá. Finalmente, havia entrado no sistema, mas nenhum exemplar na loja. Encomendei. E poucos dias depois, pela primeira vez que lembre, recebi o livro em lançamento antes mesmo do título chegar às prateleiras. Só um volume foi remetido: O MEU! YESSSSS!

Esse eu li devagarinho, que era para durar a semana inteira.
Não foi difícil: na primeira parte da história, o personagem recebe como trágica herança, aquela casa que povoa os sonhos de todo mundo que ama fantasia. Será possível que exista alguém que nunca imaginou ter como sua, aquela casa imensa cheia de segredos, antiguidades, e passagens secretas, guardando ciosa a história de seus antigos moradores, escrita como que em códigos pelos objetos deixados no lugar?

E os lobisomens...
Que delícia, Anne Rice escrevendo personagens mitológicos outra vez!
Poucos autores tem sua capacidade de mostrar a beleza do monstruoso, a beleza crua de uma força quase divina. Se Lestat era o luxo dos veludos, Reuben é o vento gelado nas copas das árvores mais velhas e mais altas. Ambos são diamantes: possuem o raro, dominam o sonho.

Reuben tem pontos em comum com Lestat: a juventude, a beleza, a violência justiceira. Mas é mais... viril, digamos. Já no primeiro livro e desde o primeiro momento, mostra uma maturidade e responsabilidade em lidar com o amor das mulheres, ou seja, bem diferente da dúbia e sensual personalidade do famoso vampiro. Comparando A Hora das Bruxas, as Crônicas Vampirescas e agora a "Saga dos LobosHomens", é impressionante como a autora consegue apropriar, tão bem, o comportamento de cada época.

DÁDIVA DO LOBO é um romance para os tempos atuais, onde o raro é a natureza, o difícil é o amor que aceita desafios, o impossível é a liberdade.


Ainda bem que comprei o primeiro livro, sabendo que há um segundo.
Como em "A Hora das Bruxas", o final da história deixa tantas possibilidades em aberto, que se o segundo estivesse disponível, não estaria aqui escrevendo agora (estava lendo o segundo volume, é claro!)













domingo, 18 de agosto de 2013

SUBLIMINAR, de Leonard Mloginow

Já no prefácio, o autor nos explica que:

  • "A ciência da mente foi reformulada por uma nova tecnologia específica, surgida nos anos 1990. Chama-se ressonância magnética funcional, (...) O resultado de aplicações como essa é uma transformação tão radical quanto a revolução quântica: uma nova compreensão de como o cérebro funciona e do que somos como seres humanos."

(leio em português, na tradução de Cláudio Carina, edição de 2012 da Zahar Editores, transcrição de "prefácio", respectivamente pg 10 e 11).

A síntese desta pesquisa tão recente quanto revolucionária, é até bastante simples.

Ao mapear o funcionamento do cérebro, cientistas estão concluindo que nossa função cognitiva (ou seja, aquilo que conseguimos conscientizar, de uma forma racional e lógica) talvez não ultrapasse 5% da atividade do cérebro. Os outros 95% são atividades imprescindíveis à sobrevivência humana, mas ocorrem de forma inconsciente, sem que deste trabalho tenhamos consciência.

Embora a informação pareça chocante na primeira leitura, logo constato que é uma conclusão lógica e pertinente. A quantidade de informações que cada um dos nossos sentidos recebe da realidade, ininterruptamente, é absurda, imensa. Se qualquer um de nós precisasse conscientizar todas estas informações, para selecionar e discriminar a importância de cada uma delas tanto no sentido da sobrevivência como do funcionamento do corpo, estaríamos em estado catatônico até antes de nascer. O que o mapeamento cerebral está descobrindo, é de uma eficácia sensacional. Do funcionamento interno do corpo, com todos os órgãos e detalhes que a gente mal sabe que tem, e de sua interrelação e comunicação com todos os elementos do mundo exterior imprescindíveis à sobrevivência, inclusos os instintos, o cérebro nos mantém vivos sem que sequer sejamos capaz de perceber a relevância de tanta informação e trabalho.

Mas SUBLIMINAR vai adiante deste ponto, focando as experiências e pesquisas que abordam como formamos nosso pensamento consciente, e a proporção de elementos decisórios inconscientes permeiam cada decisão que - supomos -, sejam tomadas de forma racional.

Isto faz com que o livro tenha uma proposta ousada, relatando e interpretando inúmeros experimentos laboratoriais visando localizar elementos inconscientes determinantes nas decisões conscientes. Alguns destes experimentos são contemporâneos, mas há várias pesquisas precedentes à tecnologia de mapeamento, agora reinterpretadas à luz dos novos conceitos.

Entretanto, sendo sincera, gostei mais do livro pelo "potencial" das pesquisas que ainda poderão ser realizadas neste contexto, e pelos conceitos gerais, do quê pelas experiências efetivamente realizadas, ou de sua análise e interpretação.
Fiquei com a sensação de que "duas décadas", para tão revolucionária tecnologia, é pouco tempo de pesquisa.

Outro ponto interessante, mas um tanto confuso, é o fato dos cientistas ainda utilizarem o termo "inconsciente", para especificar a atividade cerebral realizada sem a consciência racional. Ocorre que este termo, o "inconsciente", foi dogmatizado há mais de século, por Freud, para significar episódios traumáticos e/ou de cunho sexual, esquecidas como tal nas memórias da experiência dos pacientes em estudo, e que ressurgiam na forma histérica ou paranoica.

Ou seja: embora o termo seja o mesmo - inconsciente -, são duas interpretações e dois contextos diversos. Tão diferentes, que sequer podemos dizer que sejam opostos entre si. São diferentes, ponto final. O que causa alguma confusão, ainda que a explicação seja dada logo no início do livro.

Por todas estas razões, SUBLIMINAR é um excelente livro para quem gosta de acompanhar e "estar antenado" com as pesquisas de ponta da tecnologia comportamental contemporânea.
Porém, não vejo o texto como um "livro definitivo", acredito que a parte prática, de pesquisas e conceitos, ainda tenha um longo caminho a prosseguir, além de uma metodologia compatível a desenvolver.



O SANTO GRAAL, de Michael Baigent, R. Leigh e H. Lincoln

Já conhecia por fama O SANTO GRAAL, A LINHAGEM SAGRADA, originalmente publicado em 1982 por Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln, da leituras em críticas a outro famoso livro - O CÓDIGO DA VINCI (diz-se que Dan Bronw criou sua popular saga, com base na pesquisa de O SANTO GRAAL). Porém, na época, não encontrei esse título disponível, ainda que as prateleiras das livrarias tivessem multiplicado títulos sobre o mesmo assunto, a maioria livros posteriores que se dedicavam a encontrar "erros" no livro que se tornou tão popular, que até virou filme.

Mas dizem os esotéricos, o mestre aparece quando o aluno está pronto. Não tenho nenhuma justificativa esotérica para ter encontrado o livro "agora", mas essa explicação me parece tão plausível como qualquer outra. Talvez seja apenas que as prateleiras de sebo são mais objetivas em selecionar os livros bons para mim, do quê as mesas de lançamentos dos títulos novos. Ou não, vai saber? (leio em português, tradução de Nadir Ferrari, edição PocketOuro da Ediouro Publicações Ltda).

Controvérsias à parte, considerei a leitora de O SANTO GRAAL como uma continuação obrigatória para quem gostou do EUNUCOS PELO REINO DE DEUS, de Uta Ranke - Heinemann. Pois enquanto este último pesquisa sobretudo as adulterações do dogma na construção do poder da igreja católica, o GRAAL pesquisa a parte mais herética do mesmo conceito, nas entrelinhas dos fatos expurgados da história.

 O SANTO GRAAL, A LINHAGEM SAGRADA é uma extensa pesquisa, permeada de uma longa lista de hipóteses elaboradas, partindo de um curioso e até hoje inexplicável evento ocorrido no sul da França, na cidade de Rennes-Le-Château, envolvendo o padre Berenger Saunière.

A primeira vez que ouvi falar desse episódio, foi lendo a ficção de KATE MOSSE (que embora tenha lido, em algum lugar, que a autora escreveu uma trilogia, verdade que aqui na minha cidade só chegaram dois volumes: o SEPULCRO e o LABIRINTO, ambos ótimos!). E somando o que já li a respeito, fico sabendo que Rennes-Le-Château é uma pequena cidade francesa para onde, em julho de 1885, foi nomeado um pároco de nome Berenger Saunère, pessoa que indicava uma brilhante carreira eclesiástica, mas que, ao contrário, foi afastado para uma paróquia menor, quiçá  por desagrado ou controvérsia com algum superior.

Ocorre que, nos anos que se seguiram, Saunière enriqueceu muito além do quê seria o possível com seu parco salário de pároco. Diz-se que encontrou um tesouro, talvez dos cátaros, ou quem sabe dos templários. Com esse dinheiro surgido de forma milagrosa, o pároco fez reformou a igreja local, dedicada a Madalena, entre outros gastos que comprovavam seu enriquecimento surpreendente, além de proteger sua companheira, que apresentava-se como governanta. Saunière faleceu sem contar a ninguém seu segredo, e o mesmo o fez sua governanta. Além de Saunière, não se conhece outra pessoa que tenha encontrado ou usufruído do mesmo tesouro.

Deste episódio inicia a pesquisa de O SANTO GRAAL - e são muitas!

No livro, os autores fazem uma distinção curiosa: partindo do (conhecido) cisma entre os discípulos e Maria Madalena, registrado até nas escrituras, elaboram a hipótese de que, após o episódio da crucificação, o cristianismo ainda incipiente tenha se dividido em dois grupos distintos e mais das vezes rivais, a. que nomina "os seguidores da mensagem" e "os seguidores da linhagem".

Como "seguidores da mensagem", os autores identificam as figuras histórias que todos conhecemos (mas com alguns detalhes que não conhecemos...). São os evangelistas autorizados pelo poder oficial, os pensadores da teologia, os santos doutrinadores, os papas e as determinações da Igreja uniformizadas nos concílios.

Por sua vez, os "seguidores da linhagem" são pesquisados nos detalhes de documentos antigos, nas heresias cátara e templária, nos livros proscritos da igreja, alguns evangelhos apócrifos encontrados em sítios arqueológicos, publicações medievais monásticas posteriormente proscritas pela própria igreja, dados históricos das dinastias reais europeias e de sua linhagem, e claro, os costumes judeus da época de Jesus, que elucidam o verdadeiro significado de passagens cuja leitura é dúbia nos evangelhos oficiais.

Assim, o livro se torna obrigatório a quem interesse conhecer as principais heresias tão combatidas, a ferro e sangue, pela igreja medieval. Destaco, o conceito de que Jesus era um profeta humano (não um deus encarnado), as diferentes - e detalhadas - hipóteses de fraude na crucificação (que, assim como a entrada sobre um asno na cidade, eram parte de uma profecia judaica), a posição de Jesus como rabino em sua comunidade, e consequentemente de seu casamento - possivelmente com Madalena -, e de sua paternidade e posterior dinastia (ao contrário da castidade cerimonial, um conceito pagão inexistente na ortodoxia judaica da época).

Talvez porque nenhuma das hipóteses levantadas seja conclusiva, o texto foi construído com uma linguagem fascinante. A extensa bibliografia dos documentos pesquisados, assim como um resumo da biografia das personalidades citadas, foi deixada em anexos. Isso torna a leitura, quase um livro de aventuras, um texto linear, sequencial, apaixonante.

Também pertinentes as perguntas com que o livro encerra seu relato.
Hoje, a revelação de que Jesus era homem casado, com filhos, teria real importância? Os autores questionam se tal revelação não resultaria, para a maioria das pessoas, em um ombrear e a simples pergunta "E daí?".

Quer saber?
Concordo com os autores.
Talvez nos primórdios do cristianismo, quando até os imperadores romanos eram revestidos com uma aura divina, e a mitologia era rica e detalhada, fosse imprescindível dar ao messias as características de um deus. Mas hoje, nesta nossa sociedade pasteurizada pela ciência e pelo capitalismo, os mitos antigos perderam a força dos dogmas de fé. Algo a pensar...









MUSEU, de Véronique Roy

Minha mãe dizia, e sempre concordei: é tão gostoso sair para viajar, quanto o é o voltar para casa. No universo da literatura, adapto o conceito, e afirmo: ó outro prazer tão grande quanto ser surpreendida com uma ideia inusitada, é ler em bom texto uma confirmação daquilo que já imaginava.

Ao contrário do pensamento "politicamente correto", nunca achei que só podemos sonhar com aquilo que será possível transformar em realidade (ou, na sua contraparte, que não deveríamos sonhar com o que não é possível, viável). Para mim, isso não se chama "sonhar", mas apenas traçar metas, objetivos.

Sonhar, é mais amplo. Não tem fronteiras, e meu objetivo é, exatamente, transcender os limites da realidade. Mesmo porque, uma vida é muito pouco tempo para viver tudo de interessante que existe neste mundo.

MUSEU foi um destes prazeres (leio em português, na tradução de Flávia Nascimento, 2ª edição de 2009 da Editora Bertrand Brasil).

Claro que já imaginei como seria trabalhar em um grande museu, embora só tenha entrado em algum como visitante. E foi delicioso encontrar no livro, exatamente a ideia que fazia sobre como seria trabalhar dentro de um deles. Um prédio imenso. Corredores inacabáveis. Passagens secretas, Tantas salas que o prédio mais parece um labirinto. Um número exorbitante de valiosas peças, algumas expostas, ainda mais antiguidades guardadas, tantas outras perdidas numa (des)organização que parece impossível de resolver. Um lugar, que é antigo, e que é novo, ao mesmo tempo. Pessoas que de tão inteligentes tornam-se extravagantes, as picuinhas acadêmicas e as rivalidades previsíveis de quem trabalha junto por muito tempo, e no templo da ciência a pergunta eterna: crer ou não crer?

O prédio do romance, é o Museu Natural de Paris (Museu Nacional de História Natural de Paris), onde a autora Veronique Roy trabalhou muitos anos (não sei quantos, mas a informação está na orelha). A nota da autora, ao fim do livro, informa que as personagens e situações da obra são pura ficção, mas os elementos de debates científicos são inspirados nos escritos de professores então nominados, com indicação dos respectivos departamentos.

Aliás, os debates também são interessantes.

A trama - e a questão de fé -, gira em torno de tema bastante contemporâneo: há vida fora da terra? Quando e onde surgiu a vida? A vida foi trazida para o nosso planeta, vinda de outro lugar?

Na história, tudo inicia com um meteorito, que caído na terra, pode ser a prova de nossa origem extraterrestre, por conter princípio de vida. São convocados dois cientistas de renome e ampla cultura, um deles de carreira eclesiástica, para proceder aos estudos conclusivos. Mas a chegada dos cientistas para o estudo do tal meteorito, coincide com uma importante exposição de caros diamantes, e uma série de assassinatos de funcionários de vários escalões do museu.

A autora utiliza, com sucesso, a multiplicidade de informações e opções para manter o interesse da leitura. Enquanto o ambiente singular desperta a imaginação, todas as hipóteses são viáveis: assassinatos por interesse econômico, científico, oportuno, ou serão rivalidades? Só aos poucos a trama revela que o assassino é um funcionário do lugar, e sua possível motivação fundada na busca de provas a dogmas de fé.

Assim somos apresentados aos personagens, seguindo a regra geral de que, de perto, ninguém é normal.



sábado, 10 de agosto de 2013

COMO FALAR DOS LIVROS QUE NÃO LEMOS? de Pierre Bayard

Este foi um livro que comprei pelo título...
Não tinha ideia sobre como o autor desenvolveria o tema. Foi um risco: podia ser um livro ótimo, ou dinheiro jogado fora. (li em português, na tradução de Rejane Janowitzer, edição de 2007 da Editora Objetiva).

Pois não é que o livro se tornou uma referência?

Depois de ler COMO FALAR, não havia outra opção senão concordar com o autor.
Ele divide o livro, basicamente, em dois conceitos: os livros que a gente não leu, mas conhece. E os livros que a gente leu... mas esqueceu.

Na minha primeira aula de História da Arte, caloura da faculdade de esculturas, o professor fez uma "pegadinha" no mesmo sentido deste livro. Pediu aos alunos que levantassem a mão, quem conhecia a história de Romeu e Julieta de Shakespeare (ou será que era o Don Quixote, de Cervantes?).
Todo mundo levantou a mão.
Então, ele perguntou quem havia LIDO a obra original.
A única mão que permaneceu levantada, era um de colega que também fazia uma faculdade de letras.

Inúmeros são os livros que a gente nunca leu, mas conhece, e disso trata COMO FALAR.
Livros que nos contaram a história. Livros que foram filmados. Livros sobre os quais lemos resenhas, críticas, comentários. Livros que a gente "conhece", sabe de sua importância e em linhas gerais do quê trata... e nunca os leu!

Mas tem mais.

COMO FALAR também trata dos livros que a gente leu, inteirinho... e esqueceu a maior parte. Aliás, a maioria. Para mim, que leio como quem toma água, essa parte final do livro foi hilariante, não teve comentário com o qual não me identificasse.

Pior foi constatar que o autor tinha toda a razão: a conclusão final é que, da maioria dos livros que eu li, a memória guardou pouco mais do que uma resenha da história como um todo, e a sensação de prazer (ou não) do tipo de narrativa e/ou texto utilizado pelo autor. Muito menos do que gostaria de reconhecer.

Seja como for, COMO FALAR é uma leitura muito interessante para quem vive em uma época onde conseguir selecionar o que presta em uma massa imensa e amorfa de informações, parece ter mais valia do quê o conteúdo do que é informado. E é uma leitura tranquilizadora, daquelas que nos faz sentir "normais", mesmo quando a memória prega peças e nos faz esquecer o nome de um livro maravilhoso, ou do autor que acompanhamos com carinho.





A MELHOR HISTÓRIA ESTÁ POR VIR de Maria Dueñas

Ler Maria Dueñas é sempre um prazer! (leio em português, na tradução de Sandra Martha Dolinsky, 1ª reimpressão da Editora Planeta de 2012).

De certa forma, a leitora de A MELHOR HISTÓRIA ESTÁ POR VIR, lembra um pouco o texto de  LIVRE, A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DO RECOMEÇO, de Cheryl Strayed.

Ambos falam da história de uma mulher que, em determinado momento, deixa tudo para trás e parte (ou melhor seria dizer, "foge") para uma aventura que não tenha referência com qualquer coisa de seu passado. Mas isso, claro, respeitadas as diferenças. Enquanto "Livre" traz uma história real, "A Melhor História" é ficcional. E ainda: "Livre" é a história de uma jovem de 22 anos que pela morte ou pela distância, perde sua família. Mas "A Melhor História" é sobre uma mulher, recém divorciada e com filhos adultos e independentes, que não suporta mais a vida que havia criado para ela mesma.


Você, leitor, já passou por essa situação, de questionar se fez mesmo as melhores escolhas, ou mesmo tendo certeza delas, da insatisfação com o resultado obtido?
Se a responsa for positiva, leia A Melhor História.

Fique tranquilo, nenhuma tragédia, a personagem PENSA antes de fechar a porta de casa e deixar o passado para trás. Usa as condições que tem, como professora universitária capacitada, para conseguir uma bolsa em uma instituição distante, e mergulhar nos arquivos desordenados de um falecido e importante professor universitário, para resgatar a memória de alguém em outro país e em outra realidade. Uma mudança de rumo que, por óbvio, não poderia ter outro resultado senão... mudar de rumo.

Esse é o meu prazer pessoal de ler Maria Dueñas.
Leio, quando preciso de uma fantasia que não seja tão "fantasiosa" assim, só o suficiente para olhar minha própria vida com todas as suas opções. As personagens de Dueñas são impressionantemente verossímeis. Poderia conversar com qualquer uma delas, ali na cozinha de casa. E o texto, é um deleite. Dueñas revela aos poucos. Os segredos mais interessantes, como diz a capa do livro, estão ali adiante, misturados com um serviço aparentemente chato, até burocrático. Basta olhar, basta ver a pontinha do papel tão especial, pulando adiante de todo o papel envelhecido e esquecido. Basta olhar para o lado, olhar em volta... olhar em frente.


É uma história muito contemporânea: fala do nosso amor ao passado, e de entender nossa história recente como ela realmente aconteceu, vivida por seres que eram falíveis como nós, e idealistas como talvez jamais seremos. Dos encontros e dos desencontros amorosos, e de como o amor pode não sobreviver aos papéis sociais, ao mesmo tempo em que sobrevive aos fatos.




A DESCOBERTA DAS BRUXAS e SOMBRA DA NOITE de Deborah Harkness

Ah, como eu AMO! histórias que continuam!
Tem alguma coisa melhor que reencontrar personagens interessantes, em uma nova história?

Adoro livros em série: Anne Rice (as bruxas, os vampiros), Marion Zimmer Bradley (Darkover).
Agora, estou acompanhando Deborah Harkness (leio na tradução de Márcia Frazão, ambos em edição da Rocco, sendo A DESCOBERTA DAS BRUXAS edição de 2011,  e SOMBRA DA NOITE edição de 2012).

Se pensa em começar a ler estes romances, não se impressione com o que parece a proposta inicial, um amor entre uma bruxa e um vampiro. Nem Diana é uma bruxa "normal", tampouco Matthew é um vampiro habitual. E sem dúvida, é um livro mais indicado para as mulheres que se identificam como "bruxas".

Os livros tem uma boa base em pesquisa sobre os alquimistas medievais. O ponto de empatia entre a personagem Diana e suas leitoras (no caso, "eu"), está em focar uma mulher moderna, constrangida em falar de poderes antigos e mágicos, que não consegue fazer os mais elementares feitiços e por isso sente-se insegura, acaba trilhando o seguro caminho do conhecimento acadêmico proposto pela ciência moderna... e de repente, o chamado à aventura é tão forte que não pode ser ignorado.

O primeiro livro, A DESCOBERTA DAS BRUXAS, passa-se na era contemporânea. e Diana, uma bruxa de uma família de bruxas, mas que renega seu passado, é uma pesquisadora que se depara, por acaso, com um livro mágico. Isso a leva, sem que entenda o porquê, a ser perseguida por outras bruxas, e aos braços do vampiro que, por algum tempo, não se sabe se será um protetor ou um perseguidor.

Sinceramente, achei o primeiro livro mais cansativo que o segundo. As concepções, a pesquisa e a ideia da escritora não ficam suficientemente claras no primeiro livro e, por isso, há momentos em que parece uma fantasia desvairada ao estilo Harry Potter para adultos. Vou confessar: li o livro porque a narrativa era interessante, mas foi um daqueles textos que li rápido porque queria saber o final.

Conclusão?
Tive que reler A DESCOBERTA DAS BRUXAS, quando comprei  A SOMBRA DA NOITE porque, neste sim!, havia toda a pesquisa da Idade Média, suas superstições, personagens históricos da pesquisa científica "alquímica" e um conceito de bruxaria que fazia sentido, ainda que ficcional.

A SOMBRA DA NOITE é uma viagem no tempo. Diana e seu amor vampírico voltam aos tempos medievais, fugindo da ameaça de morte que paira sobre ela e sua família nos tempos contemporâneos. É um mergulho em uma Idade Média onde humanos e criaturas convivem, sem que aqueles de fato reconheçam a existência destes. Demônios, Bruxas e Vampiros formam os três grupos de criaturas que se relacionam, e procuram formas de sobrevivência com humanos em um mundo sempre conturbado pelos interesses pessoais e pela política reinante.

E agora... falta o terceiro volume, não é?
Aguardando edição!












BRUXOS E BRUXAS, de James Patterson e Gabrielle Chabonnet

Lembro até hoje de uma matéria publicada quando a saga "Crepúsculo" ganhou notoriedade, que dizia: se você não conhece a história, sua filha com certeza a conhece.

Foi o que lembrei, quando passei pela livraria e vi, com uma capa habitual aos livros com temas de bruxarias - bastante "adulta", por sinal -, um livro intitulado BRUXOS E BRUXAS, subtítulo "Livro Proibido pela Nova Ordem", referências de orelha que sugeriam uma história de livre interpretação do 1984 de George  Orwell, e uma ressalva "proibitiva" para os "adultos"... (leio na tradução de Ana Paula Corradini, edição de 2013 da Editora Novo Conceito).

Acho que a conjugação "proibido" e "livros", é sempre fascinante.
Quem gosta de ler, e não gosta de "livros proibidos" (ou livros sobre "livros proibidos"), que jogue a primeira pedra!
Comprei, claro.

A história é interessante, mas manipulada a partir de (visíveis) conceitos do-que-funciona na propaganda, que tenho lá minhas dúvidas se realmente funcionam... Opinião pessoal, não que esteja desmerecendo a importância da mídia para alavancar as vendas de um livro, mas realmente acho que funcionam melhor quando acontecem "ao redor" de um livro, do que quando consideram o próprio livro como um produto. Sou suspeita para opinar... mas, para mim, ficou visível "demais", no texto, onde estava a história e onde estava a mídia. E verdade seja dita, não tive tempo suficiente prá pesquisar, na Net, se este livro fez o sucesso que se esperava, ou não.

Feita a ressalva, a história é bacana.
Se vou me ofender pela insinuação ostensiva de que os adultos são mais manipuláveis pelo "sistema", do que as crianças e os jovens? JAMAIS! Ao contrário, até acredito que o conceito de "maturidade" esteja intimamente ligado à capacidade de se adaptar (e até mesmo, a acreditar ou a obedecer) o que quer que seja o sistema dominante vigente à época de nossa vida adulta.

A parte boa foi rever, em nova linguagem, ideias de autores clássicos da ficção nas entrelinhas de um texto publicitário "para jovens". Lá está, implícito, o "1984" de George  Orwell com seus adultos amedrontados, quase hipnotizados pelo "sistema" dominante.
Toda a história é dominada pela magia, mundos paralelos e o grande desafio da luta do bem contra o mal, uma luta de poder e dominação. O texto é de fácil leitura (li em uma noite).


Depois de ler o livro, lembrei de quando criava minha filha... Fiz o máximo possível para ser uma "mãe normal" (sem muito sucesso, se for para confiar na opinião dela), mas não queria uma filha conformada.. Se ainda estivesse nesta fase, este era um livro que eu daria para ela: tenha seu pensamento independente, seria a mensagem deste "livro-presente". Nada mal, afinal.







MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI

Pobre blog, quase abandonado, nem sei há quanto tempo!

Gostaria de dizer que foi por uma boa causa, mas não tenho certeza se realmente o foi... Nestas semanas, trabalho MUITO estressante, preferi enfiar a mão na argila porque antes de fazer qualquer imagem, a gente soca, soca, soca, e parte do stress e da raiva vai junto com o trabalho cansativo. Não fiz nenhum trabalho extraordinário, apesar disso. Fiz um casal em pose erótica, quase uma homenagem a um garoto bonito que conheci na internet, e protegida pela distância, tornou-se uma fantasia criativa. Como costuma acontecer com essas amizades virtuais, perdi o contato, então fiz uma segunda peça, o rosto de uma personagem, quem sabe assim me animo a voltar a escrever o texto.







Porque neste meio tempo, também peguei aquele experimento, de escrever um romance na forma de contos, e coloquei, no tamanho que estava, em um concurso local. Claro que sei, não faço parte "do meio", não tenho chances de premiação. Mas colocar em concurso, foi como dar um ponto final em algo que, na verdade, deveria continuar. Pois é... Nunca soube direito como exercer vários papéis ao mesmo tempo. Ao enfrentar a burocracia, repassar o texto para a formatação determinada, fazer cópias e preencher formulários... lá se foi a artista, aqui veio a burocrata, e a inspiração se perdeu no meio do caminho. Como disse, sem querer me repetir, o jeito foi mudar de rumo e "sovar argila" por algum tempo, até que conseguisse me reconhecer outra vez.

Com "pontos finais" ou sem "´pontos finais"?
Boa pergunta.
Há momentos em que converso comigo, tentando me convencer a aceitar minha dificuldade com os "pontos finais" nos projetos de arte. Eu não os termino, mesmo quando termino. Eu volto, faço outra vez. Produzir arte, para mim, é como uma fuga de Bach: pego o tema, não largo mais, fico fazendo variações, cada vez mais complexas, ou cada vez mais simples.

Mas serve como consolo, saber que esse círculo vicioso é um comportamento localizado, só acontece com meus projetos particulares em arte. Na vida, coloco pontos finais com uma facilidade que já espantou amigos, espalho a poeira e sigo em frente. E por falar em seguir em frente, quero baixar um pouco a pilha de livros a comentar, que acumulei nestas semanas. Vamulá?

domingo, 7 de julho de 2013

LIVRE, de Cheryl Strayed

Quando comecei a ler LIVRE, A JORNADA DE UMA MULHER EM BUSCA DO RECOMEÇO, de Cheryl Strayed, lembrei de um episódio, uns dois anos atrás, quando uma professora que não simpatizava comigo e, ciente da minha paixão por literatura, fez questão de dizer em voz alta, para toda a turma reunida, do seu desprazer em ler "romances"  - imagine falado com aquele tom pejorativo, de puro tédio -, porque não conseguia entender qual a graça em ler uma história que não é "verdadeira", que conta algo que nunca aconteceu, é apenas a imaginação de um escritor. (Leio em português, na tradução de Débora Chaves, editado pela Editora Objetiva em 2012)


Pois LIVRE é uma literatura, que talvez agradasse até mesmo à aquela professora ranzinza que não gosta de fantasia.
Não é uma "história inventada", mas sim o depoimento da autora Cheryl Strayed sobre como, aos 22 anos, após a inesperada morte prematura de sua mãe, o distanciamento dos irmãos e um divórcio, decidiu fazer uma trilha de longa distância, a caminhada pela Pacific Crest Traisl atravessando a pé do Deserto do Mojave até o final do Oregon/EUA.

Quando era adolescente, existia um mote que a gente sempre repetia, quando tudo acontecia rápido demais para absorver tanta informação (normalmente, semana de provas...). A gente repetia, uma para as outras, PAREM O MUNDO QUE EU QUERO DESCER! Provável seja uma frase de Mc Luhann, ou de algum outro dos meus autores prediletos da época. A memória deletou a autoria, mas a frase eu nunca esqueci.

De fato, não é um livro de "fantasia". As tragédias da autora/personagem são trazidas pela memória, as aventuras estão dentro do que se poderia esperar dos riscos, esforço e perigos de uma trilha de longa distância. Ainda assim, é um livro envolvente, daqueles em que a gente confunde se está mesmo lendo, ou se não estamos nós/leitores, atravessando aquela trilha pensando também em nossos próprios problemas.

Perdi a conta do número de vezes em que "conversei" com a autora/personagem, como se pensasse duas coisas ao mesmo tempo, o que eu lia e as minhas próprias reflexões que se misturavam. Pelo menos uma vez, lembro de ter respondido a ela. Foi na parte em que ela tem a opção de continuar a trilha com outros trilheiros que conheceu no acampamento, mas prefere prosseguir sozinha, e é sozinha que estranha sua própria decisão. Foi uma (das várias) partes em que me identifiquei com a autora/personagem, e até comentei com ela (???) que na primeira vez que fui morar sozinha, uma amiga comentou que ia estranhar "como a gente pensa!", quando fica só, e como isso é verdade. Acho que também teria seguido sozinha... e segui, de certa forma, junto com o texto.

Mais de uma vez, fantasiei o que aconteceria, se simplesmente jogasse tudo para o alto, colocar uma mochila nas costas e sair caminhando. Porque, como a autora/personagem, também tive as fases da vida em que parece que tudo dá errado, e que reverter ou recomeçar será um esforço tão extenso, e será que vale a pena? Há uma carta do meu tarot que fala deste momento, quando caminhamos de mãos vazias em direção ao abismo (ou ao desconhecido). Nunca o fiz, mas lendo LIVRE, ficou a pergunta: quem eu seria "hoje" (ou quem seria "você"?), se tivesse mesmo colocado a mochila nas costas e partido?









quinta-feira, 4 de julho de 2013

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA DO SÉCULO XXI

Pobre blog, semiabandonado nestas semanas tão conturbadas!
Mas não teve jeito: a vida "virtual" teve que ceder espaço à vida REAL, porque coisas demais aconteceram ao mesmo tempo.

Primeiro, duas semanas intensas de manifestações de rua, milhares de pessoas marchando pelas cidades do país inteiro, reivindicando e protestando. Tudo começou com os aumentos das passagens de ônibus... que autoridade alguma deu importância. Mas, longe de perder força, a indiferença dos governantes só fez crescer as manifestações. Em uma semana, o movimento era nacional. Em uma semana, haviam listas de reivindicações escritas nos cartazes da população nas ruas. Na semana seguinte (finalmente), os políticos entenderam que o movimento veio prá ficar.

Foi bonito de ver, foi emocionante participar.
Foi gostoso espalhar na voz e na Net, a frase que estava entalada na garganta há anos.
VOCÊ NÃO ME REPRESENTA. Não, senhor político, o senhor não me representa. Não, partidos políticos, vocês não me representam. Não aos vândalos oportunistas que esperavam a multidão passar para depredar nossas cidades... vocês não me representam. E não, imprensa tendenciosa, mídia politiqueira, jornalismo oportunista, vocês também não me representam.

Não foi um movimento "conservador", nem liberal,.
Foi o povo na rua.
Não foi um movimento "partidário", nem foi algum tipo de "golpe de estado".
Foi o povo na rua.
Sem líderes. Sem representantes.
Cada um com seu cartaz caseiro, escrito à mão, levantado com palavras de ordem que eram inventadas na hora, no meio das passeatas, da mesma forma aleatória como foram definidos os primeiro percursos das multidões.
Foi bonito de ver!

E neste meio tempo...sim, o Brasil foi campeão na Copa das Confederações.
Claro que assisti aos jogos (pela televisão) e vibrei com cada gol.
E porque não?

Nem por isso a vida para. O trabalho seguiu em frente, prazos sobre prazos, reuniões sobre reuniões. Tanta adrenalina, e já voltei aos trabalhos. Um concurso de contos foi o bastante para estipular um prazo e revisar os quatro contos que já tinha esboçado, e que juntos fazem o mínimo para concorrer. Não tenho expectativa de premiação, mas gosto dos prazos que estes concursos me impõem. Acho necessário, enquanto esta vida não me traz muitas opções além de escrever prá gaveta. Não faz mal. Ninguém lê, mas estou escrevendo sempre um pouquinho melhor. E com mais paciência prá revisar os textos (coisa chata! E parece que nunca termina... sempre tem alguma coisa prá mudar...). E desenhei, e pintei, e coloquei uma argila na mesa. Vou fotografar, depois posto alguma coisa aqui.

E então, meu blog ficou aqui, paradinho, às moscas.
Os livros lidos agora fazem uma pequena torre do lado da cama, recuso-me a guarda-los enquanto não tiver resenhado aqui um pouco de seu conteúdo. Mas isso, não farei hoje. É tarde, estou cansada, nem o relatório das exposições e do curso não consegui fazer por completo.

Não faz mal.
Um pouco a cada dia
Um passo de cada vez.




OFICINA DE INVERVENÇÕES URBANAS, com a estátua em gesso em exposição na EMBAP
2013







domingo, 9 de junho de 2013

INFERNO, de Dan Brown

Superpopulação! Nossa, a quanto tempo procurava um livro que abordasse, pela ficção, o tema da superpolução neste início de século XXI! É um tema "tabu"... Não é para qualquer pessoa, conseguir pesquisar sobre este assunto. E nunca soube de forma melhor de começar a pensar (e pesquisar) sobre um assunto "tabu", do que através da ficção.

Dan Brown tem a "receita" dos livros de ficção que começo a ler, e não consigo parar senão quando viro a última página (e com vontade de ler mais). Desta vez, não foi diferente. Um assunto muito atual e extremamente polêmico, misturado a obras e mais obras de arte renascentista ou medieval vistas pelo olhar simbolista de um historiador, e uma narrativa construída no clássico formato dos livros de aventura. Não resisto, não tem como. Comprei o livro pretendendo tê-lo como leitura por, pelo menos, uma semana. Li inteiro no mesmo dia, avançando até alta madrugada, sem conseguir dormir. Ainda bem que são poucos autores que conseguem me "pegar" deste jeito, senão como teria orçamento prá tanto livro? (Leio em português, na tradução de Fabiano Morais e Fernanda Abreu, edição de 2013 da Editora Arqueiro Ltda).

Será que vou infringir a alguma lei de direitos autorais ao transcrever um parágrafo do livro? Espero que não. É difícil parafrasear conceitos que estão bem sintetizados na fala de um personagem, na exata questão que tenho perguntado tantas vezes quais as consequências, quando penso no "futuro do mundo" entre uma atividade e outra.

Superpopulação...
O vilão da história (sim, é o vilão quem trata dos assuntos polêmicos, "tabu"... quem mais seria?) resume a questão, nestas palavras: " - Pense no seguinte: a população da TErra levou milhares de anos, desde a aurora da humanidade até o início do século XIX, para atingir um bilhão de pessoas. Então, de forma estarrecedora, precisou apenas de uns cem anos para duplicar e chegar a dois bilhões, na década de 1920. Depois disso, em menos de cinquenta anos, a população tornou a duplicar para quatro bilhões, na década de 1970.n Como a senhora pode imaginar, muito em breve chegaremos aos oito bilhões. Só hoje, a raça humana acrescentou outras 250 mil pessoas ao plane Terra. Um quarto de milhão. E isso acontece todos os dias. Atualmente, a cada ano, acrescentamos ao planeta um pouco mais do que o equivalente a toda a população da Alemanha." (obra citada, fls. 101).

E adiante: "Sabia que, se viver mais 19 anos, até os 80, verá a população triplicar ao longo da sua vida? Triplicar, no tempo de uma única vida. Pense nas implicações. (...) Espécies animais estão entrando em extinção num ritmo aceleradíssimo. A demanda por recursos naturais cada vez mais escssos é astronômica. É cada vez mias dífícil encontrar água potável. De acordo com o parâmetro biológico, nossa espécie já excedeu sua sustentabilidade numérica. (...) Qualquer biólogo ou estatístico ambienta. lhedirá que a maior chance de sobrevivência a longo prazo para a humanidade acontece com uma população de cerca de quatro bilhões de habitantes (...) " (obra citada, respectivamente fls. 102 e 105).

A Divina Comédia, de Dante Aligheri, interpretada pela tela do Inferno de Botticelli complementam meu fascínio no livro. Quantas vezes já me perguntei se a sensação de solidão da contemporaneidade não advém, diretamente, da superpopulação? Se informação demais "emburrece", porque gente "demais" não poderia nos isolar? O paradoxo dos extremos, que faz com que coisas opostas se tornem a mesma coisa.

É um livro que faz pensar.
Não acredito que alguém possa olhar o gráfico do crescimento da população mundial ao longo da história (obra citada, fls. 103), ou o dos indicadores negativos do grau de poluição humana na terra (obra citada, fls. 136), sem parar para pensar sobre o futuro que nos aguarda. E para exercícios de futurologia, em uma previsão algo macabra, o quê melhor que a ficção?

O pior foi constatar que é um dos livros em que me identifiquei mais com o vilão, do que com os heróis. Li o livro feliz em pensar que a decisão sobre o quê é possível fazer, passa muito longe das minhas responsabilidades. Mas a solução encontrada pelo cientista-vilão, considerados todos os parêmetros, é de ser pensada: realmente uma catátrofe? Ou não seria mesmo uma solução indolor e satisfatória? Acordei no dia seguinte ainda sem uma opinião formada, mas feliz em ter lido um livro que reflete minhas indagações.